Armazenagem- “um mal necessário”

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O impacto da falta de capacidade de armazenagem no agronegócio
Por Paulo Oppermann (*)

Muitos de nós já se perguntaram: por que determinado produto é comprado do produtor por um preço e acaba chegando ao consumidor por até quatro vezes mais que a aquisição na origem?

Para ilustrar um pouco essa situação podemos ter uma pequena amostra no exemplo a seguir.

No período de Páscoa, mais precisamente na semana santa, o consumo de peixe aumenta muito pela tradição religiosa da nossa sociedade. Há poucos dias tive a oportunidade de visitar parentes no interior do Rio Grande do Sul, que criam peixes como forma de subsistência. Ali são cultivados carpas e tilápias, esse por sinal é comercializado como Saint Peters, e nessa época os piscicultores  estão se preparando para atender esta demanda sazonal e capturando seus os peixes para a comercialização.

O que nos encanta é o processo que eles aplicam: retiram os peixes no açude, colocam em tanques com água e levam até um feirão no centro da cidade para a comercialização, lembrando que para uma carpa estar pronta para o abate são de mais ou menos três anos de cuidados diários com ração e pasto. Ao observar o processo, deparei com algo impactante: o preço de R$ 10,00 por quilograma que os produtores aplicam em seus produtos na feira da cidade é comercializado nas grandes cidades por R$ 40,00 ou mais o quilograma, ou seja  400 % a mais, e me  perguntei: Por que isso acontece?

A resposta que mais me vem em mente é o efeito da “lei natural da oferta e demanda”, como primeira hipótese, aliados ao mecanismo lucro e especulação das partes atuantes nessa cadeia, assim como todos os custos logísticos nesse processo.

Um sistema logístico, visto como um processo amplo e complexo na administração de fluxos e armazenagem de bens, entre outros, faz parte da cadeia produtiva de produtos que tem por finalidade melhorar os serviços e reduzir custos dos processos desde os produtores iniciais até o consumidor final.

Entre os principais sub processos dos sistemas logísticos estão o transporte e a armazenagem que  não agregam valor aos produtos, pois não transformam os bens em que atuam, mas inequivocamente somam custos importantes ao preço final que é aplicado aos produtos oferecidos aos consumidores finais, sendo considerado é um “mal necessário”.
Mas afinal a armazenagem, que é o foco desse artigo, se não agrega valor ao produto e custa caro, por que armazenar? Uma resposta primária pode estar relacionada no descompasso do efeito do lugar, tempo e momento entre de produzir e consumir bens, ou seja, não é um fluxo contínuo ideal e livre de interferências dos aspectos da realidade. Sendo assim, não havendo o fluxo contínuo entre a oferta de demanda a utilização da atividade armazenar se faz necessária ao longa de toda cadeia produtiva com forma de proteção do atendimento da demanda.
De outro lado, o uso de armazenagem é usado como estratégia para atender demandas quando a oferta é escassa e em caso de sazonalidades da produção de alguns bens.
A armazenagem tanto pode ser um  fator estratégico como uma necessidade que custa, pois de  alguma forma possibilita maior eficiência no transporte de mercadorias e produtos, com otimização das cargas dos veículos, além de ser usada como forma de proteger fluxos produtivos, que quando adequado o nível de armazenagem, auxilia na melhoria na eficiência operacional dos processos produtivos, bem como  melhorar o nível de atendimento aos serviços e até  pode ser um aliado no aumento da lucratividade quando o a curva da oferta esta menor que a demanda.
Outra situação de cotidiano que nos chama a atenção podemos verificar o caso da água mineral em garrafinhas.
Quanto é o custo do produto? Quanto é o custo da embalagem? Quanto é o custo de logística? Qual lucro de cada etapa do processo desde a origem até o consumo? As respostas a essas questões são surpreendentes, mas o custo do produto, sem dúvida, é o menor de todos, os demais são referentes a colocar o produto disponível num momento e lugar, ou seja, esse é mais um exemplo dos efeitos nos custos e na estratégia de lucratividade que as funções de logísticas podem participam e merecem atenção profissional.
Neste sentido, em meio a um período de safra agrícola, percebemos que as lavouras estão prontas para colher, as máquinas agrícolas estão trabalhando na colheita, veículos para transportar aparentemente estão disponíveis no mercado, principalmente após recente a crise econômica brasileira, os portos não conseguem dar vazão ao fluxo cargas em  caminhões que recebem diariamente, filas enorme se formam nas ruas e avenidas próximas aos portos exportadores,  não tem capacidade suficiente de armazenamento nos portos e muito menos no campo.
Nesse desafio anual das safras podemos perceber três fatores impactantes presentes e carecem de análise e crítica: os caminhões são usados como meio de armazenagem e ficam dias na espera para descarga, o que encarece o frete e por consequência mais custo no processo produtivo. Isso porque a finalidade de um caminhão é transportar e rodar com carga sempre completa e quando isso não ocorre a finalidade a que ele se destina está comprometida. Caminhão não é lugar de estoque e custa muito para tal.
Como os caminhões viajam do campo para os portos carregados de produtos e não retornam (aqui tem mais uma ineficiência, caminhão não deveria rodar vazio no retorno) gerando a  falta veículos para colocar as cargas, como não tem onde armazenar, por muitas vezes a safra fica aos efeitos das intempéries gerando perdas dos produtos.
a perda de oportunidade de comercialização dos produtos em momentos de baixa oferta.
Nessa situação, o fato de poder armazenar produtos permite que a venda seja efetuada no momento mais adequado com relação a oferta e procura, além de possibilitar um processo logístico mais eficiente.
Como podemos perceber, a falta de estrutura de armazenagem no processo produtivo agrícola no Brasil, onde não se vê uma política de incentivo à construção de silos e instalações apropriadas conduzem a perdas significativas nos fluxos dos produtos agrícolas, assim como a de oportunidade de comercialização em momentos mais apropriados. Isso chama-se custo Brasil. Assim, um produto pode chegar ao consumidor com menor custo e proporcionar ao produtor mais lucratividade pela capacidade de atender as demandas nos períodos de baixa oferta.
Dessa forma o “mal necessário” passaria a ser um aliado na cadeia produtiva.

(*) Mestre em Engenharia de Produção UFRGS
Executivo e Consultor
Opper Consultoria Ltda

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