Brasil vive racionamento forçado de energia

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 O Brasil hoje vive um racionamento de energia “forçado”, em função dos altos custos das tarifas industriais e residenciais e do acréscimo da bandeira tarifária. A revisão tarifária extraordinária, de 2 de março, fez com que alguns consumidores tivessem seus custos com energia aumentados em mais de 60%. Com isso, o risco de apagão para o Brasil, em 2015, está descartado, enquanto que para 2016, e anos seguintes, não chega a 2%. A informação é de Álvaro Garske Scarabelot, coordenador do grupo de gestores de contratos de energia elétrica da GV Energy. A seguir, leia os principais trechos de sua entrevista a MODAL, logo após a sua participação no Conselho de Infraestrutura (Coinfra) da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, em 3 de agosto.
Com a queda do nível de atividades no país, foi definitivamente afastada a ameaça de apagão em 2015?   A queda no consumo de energia elétrica no Brasil tem sido abruta em 2015, se compararmos com a projeção da empresa de pesquisa energética (EPE) e com o consumo realizado em 2014. O aumento das tarifas, agregado à elevação na taxa básica de juros, cortes de gastos públicos e campanhas de racionalização, obrigou os consumidores a reduzirem os seus gastos com energia. A redução de consumo em 2015 e a melhora do regime de chuvas do último trimestre fizeram com que o risco de racionamento para 2015, calculado na última reunião do ONS, fosse zerado.
Qual é hoje o preço mais caro em MWh nos estados da federação? Qual o lugar do RS nesse ranking? Atualmente o custo médio do consumidor industrial do Brasil, conectado em tensão 2,3 a 25kV, é de aproximadamente 363 R$/MWh – sem considerar impostos e incremento de bandeiras tarifárias. Das 55 distribuidoras mais significativas do Brasil – são 64 ao todo se considerarmos cooperativas, permissionárias e distribuidoras de energia – a Nova Palma Energia é a que tem o custo médio com energia mais cara do país, aproximadamente 462 R$/MWh. Das três principais distribuidoras do Rio Grande do Sul, a AES Sul é a que tem o custo médio mais caro para o consumidor industrial. Os atuais contratos de energia que compõem o conjunto de compras da AES Sul são mais caros se comparados com CEEE e RGE. Cabe destacar que a CEEE ainda passará por reajuste tarifário em 25 de outubro.
Até quando vai ser cobrada a bandeira vermelha tarifária? A bandeira tarifária é acionada em função do custo da usina mais cara ligada ao sistema elétrico em um determinado mês. Com a seca de chuvas, todo o parque térmico nacional tem sido acionado para “poupar” água dos reservatórios. Contudo, no último mês, o ONS já reduziu o acionamento do parque térmico e a projeção é que as térmicas gradualmente sejam desligadas. De modo geral, a tendência ainda é de bandeira vermelha e/ou amarela para o restante do ano de 2015, principalmente pela atual situação do Nordeste. A previsão de acionamento de bandeiras tarifárias para 2016 vai depender do regime de chuvas do período úmido – época do ano entre novembro a abril onde na média histórica se tem altos volumes de chuva na região sudeste. Em nossos recentes estudos temos utilizados previsões de acionamento de bandeira verde para 2016 em diante.
Qual a capacidade de geração do RS? O estado do Rio Grande do Sul possui hoje um total de 285 empreendimentos em operação, gerando aproximadamente 9 GW de potência instalada, conforme números da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O RS representa em termos de capacidade instalada 6,52% da geração total do país.  Está prevista para os próximos anos uma adição de 3,6 GW à capacidade de geração do estado, proveniente dos 22 empreendimentos atualmente em construção, e de mais 46 em construção ainda não iniciados. Esse incremente significaria um acréscimo de 40% na capacidade de geração do estado.
Em relação ao fornecimento de energia, qual o maior entrave? No final de julho deste ano os reservatórios do Sul chegaram a 97% de energia armazenada. Em suma, o cenário atual é confortável e as recentes chuvas tem favorecido até mesmo a exportação de energia para a Argentina. A carga do RS gira em aproximadamente 4 a 4,5 GW. A Aneel informa que a capacidade instalada do RS é 9 GW. Entretanto, a agência considera nesse valor usinas hidrelétricas que fazem divisa com SC e usinas térmicas de outros produtores. Se reduzirmos em 50% a capacidade das usinas hidrelétricas que fazem divisa com SC e retirarmos a autoprodução, a capacidade do RS fica em 7,4 GW. Considerando os fatores de aproveitamento de cada fonte de geração teremos uma capacidade média de atendimento de carga na faixa de 4,4 GW. Número este que atenderia a atual demanda da carga em períodos de bom regime de chuvas. Já em períodos mais secos somos normalmente socorridos pelo Sudeste.
Quais os maiores desafios para o estado? Vislumbrando um horizonte mais longo de suprimento, o incremento de geração de 3,6 GW seria suficiente para o crescimento do estado como um todo. Entretanto, a grande preocupação paira sobre os projetos de geração ainda não iniciados. Eles representam 3,27 GW do total do incremento. É preciso urgentemente atacar individualmente cada projeto para que eles não atrasem e de fato sejam concluídos. É preciso também repensar os diversos entraves existentes que dificultam a liberação e homologação dos projetos. A burocratização e simplificação dos processos precisam ser revistos e discutidos com os órgãos do setor de maneira mais incisiva. O processo dos licenciamentos é outro ponto que precisa ser repensado para que os projetos sejam menos morosos e atraiam mais investidores ao estado.

Qual a recomendação da GV Energy para os consumidores indústrias do RS reduzirem seus altos custos com a energia elétrica? A melhora do regime de chuvas e dos níveis dos reservatórios fizeram com que os preços de energia do mercado livre para os próximos anos despencassem. Em menos de um mês o preço da energia para 2016 diminuiu 25% (mais de 70 R$/MWh) e atualmente estão na faixa de 210 R$/MWh (energia incentivada 50%, sem ICMS). A GV Energy tem recomendado fortemente que os consumidores do mercado cativo migrem para o mercado livre para reduzirem seus custos com energia e fujam da volatilidade de custos das bandeiras tarifárias. Os recentes estudos realizados pela GV Energy para os consumidores do RS têm apresentado ganhos médios de 20% a 28% para os próximos anos. Para os consumidores que já se encontram no mercado livre, a GV Energy recomenda que sejam revistos seus processos de recontratação de energia para os próximos anos de suprimento. Com a recente queda nos preços, uma janela de oportunidade de contratação de energia se abriu para que negociações comecem a ser realizadas e custos futuros sejam negociados a bases menores.
(Foto/Divulgação)

 

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