Colocar o RS de volta aos trilhos exige investimentos de R$ 3,5 bilhões em infraestrutura

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Engenheiro Civil e de Segurança do Trabalho de formação, atual conselheiro do Coinfra(Conselho de Infraestrutura) da Fiergs, conselheiro da Câmara de Comércio Exterior da Fecomercio-RS, e da Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul, Daniel Lena Souto é um estudioso do modal ferroviário. Ele nota que a participação de trens no transporte de carga no estado vem caindo desde 2011, atingindo em 2016 apenas 57% do que movimentava cinco anos atrás, e que este recuo se dá no transporte de grãos por falta de vagões especializados.

Para ele, o Rio Grande do Sul tem demanda na agropecuária e seus insumos, e que linhas de maior potencial para o transporte de cargas são as que ligam o oeste, o noroeste e o norte do estado ao porto do Rio Grande. “Dentro desta visão, deve ser considerada a oportunidade da construção da Ferrovia Norte–Sul que terá um papel preponderante, principalmente no escoamento de grãos do estado e do oeste de Santa Catarina”, defende Souto nesta entrevista à Modal.

Para colocar o estado nos trilhos, seriam necessários investimentos da ordem de R$ 3,5 bilhões em infraestrutura e remodelação de terminais na malha da Rumo até 2024 e mais R$ 4,77 bilhões para a construção da Ferrovia Norte–Sul que ligará o oeste de Santa Catarina ao porto do Rio Grande. A visão estratégica do uso da ferrovia consta do Pelt – Plano Estadual de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul, o qual ele conhece muito bem.

Levando em conta as características atuais do modal ferroviário do Rio Grande do Sul é possível dizer que praticamente nada deve mudar nos próximos cinco anos para reverter o quadro atual?

A diminuição da participação da ferrovia no transporte de mercadorias no estado se originou da atuação calamitosa da antiga concessionária ALL Logística, que não realizou a manutenção devida na via permanente e transferiu vagões especializados no transporte a granel e locomotivas em melhores condições de operação para atuarem no Paraná, trazendo para o Rio Grande do Sul vagões e locomotivas sucateados.

A entrada da Rumo, há cerca de dois anos, trouxe a expectativa de que poderia haver mudanças na gestão que viessem a melhorar o quadro atual de abandono de linhas e baixas velocidades dos trens, mas até agora não se vislumbra qualquer movimento da empresa em mudar a situação. Muito pelo contrário, as declarações dos seus dirigentes recentemente, em reunião na Farsul, são de que somente irão investir no Rio Grande do Sul se houver a prorrogação do contrato atual que vence em 2027, por mais trinta anos. Há um movimento coordenado pela Farsul envolvendo a Fiergs, Fecomércio e outras entidades empresariais ligadas ao setor da agropecuária gaúcha que objetiva o restabelecimento da operação ferroviária em trechos que estão atualmente abandonados ou subutilizados, já para a próxima safra. Foram criados três grupos que estudarão juntamente com a Rumo a possibilidade e oportunidade de serem assinados termos de compromisso de transporte de quantitativos que interessem a empresa, a qual então deslocará locomotivas e vagões para atender a demanda contratada.

Danial

O senhor vê chances de a Rumo tornar as linhas da região Sul rentáveis, atraentes e competitivas?

A Secretaria dos Transportes do Rio Grande do Sul contratou, com o apoio do Bird (Banco Mundial), a elaboração do PELT-RS (Plano Estadual de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul), o qual está em fase de conclusão e tem como objetivos principais: definir a visão de futuro e as estratégias de intervenção pública e privada, no setor dos transportes e da logística, a fim de fomentar, nos próximos 25 anos, o crescimento da economia estadual; e fornecer ao estado as ferramentas de planejamento no setor de transportes e da logística, visando torná-lo autossuficiente no diagnóstico de suas demandas e no planejamento de seu próprio sistema logístico. Este plano tem caráter dinâmico e participativo, e a Secretaria dos Transportes está montando uma estrutura que vai acompanhar o desenvolvimento do transporte e da logística em tempo real, possibilitando a realização de alterações que sejam necessárias no planejamento das obras de infraestrutura do estado. O que o governo deve fazer é exigir que o planejamento de investimentos da Rumo para o estado seja aderente ao proposto no Pelt e assim avançar na modificação prevista na matriz de transporte atual com o incremento da utilização dos modais ferroviário e hidroviário, incentivando uma maior integração intermodal. Sou da opinião que o governo gaúcho somente deva permitir a renovação do contrato com a Rumo, ou outra empresa que a suceder, se houver o compromisso de serem realizados investimentos necessários ao desenvolvimento do transporte ferroviário no estado previstos no Pelt.

A maioria das linhas ferroviárias do estado, sob a ótica do posicionamento geográfico, são atraentes e competitivas. O que ocorre é que o estado atual da infraestrutura da via permanente da Rumo está péssimo devido à falta de manutenção. Isto obriga os trens a trafegarem, em grandes trechos, a 10 km por hora. Por outro lado, a utilização de vagões e locomotivas, na sua maioria em mau estado e que não são especializados, acaba onerando a carga e descarga nos terminais, provocando um desestímulo na sua utilização. A concorrência com o caminhão torna-se cada vez mais difícil, ainda mais se o percurso ferroviário for pouco superior, com os trens andando a 10km por hora e com vagões sucateados tracionados por locomotivas obsoletas.

Quais as linhas com maior potencial de movimentação de cargas futuro na região Sul, em particular no Rio Grande do Sul?

O Rio Grande do Sul é um estado com forte demanda da agropecuária e seus insumos, e por isto as linhas de maior potencial para o transporte de cargas são as que ligam o oeste, noroeste e norte do estado com a porto do Rio Grande. Dentro desta visão deve ser considerada a oportunidade da construção da Ferrovia Norte–Sul que terá um papel preponderante, principalmente no escoamento de grãos do estado e do oeste de Santa Catarina para sua exportação aos mercados consumidores.

Movimento de Carga 2011-2016

Qual seria o volume de recursos necessários para serem investidos pela operadora na reativação da malha ferroviária da região e em quanto tempo a Rumo teria o retorno desse investimento?

O PELT prevê até 2024 a necessidade de investimentos da ordem de R$ 3,5 bilhões em infraestrutura e remodelação de terminais na malha da Rumo no estado, e mais R$ 4,77 bilhões para a construção da Ferrovia Norte–Sul que ligará o oeste de Santa Catarina ao Porto do Rio Grande, com a sugestão de que a obra inicie pelo porto gaúcho em direção ao norte. Isto facilitaria a utilização imediata dessa ferrovia, na medida em que os trechos fossem sendo concluídos, pois a sua conexão com o terminal portuário já estaria assegurada. A estes valores deverão ser acrescidos a aquisição e/ou remodelação de vagões e locomotivas.

Quanto ao tempo de retorno desse investimento, ele estará diretamente ligado à competência da Rumo em prestar bons serviços a custos competitivos, se comparados com o modal rodoviário, o que certamente aumentaria o volume de cargas a ser transportada e diminuiria o tempo de retorno dos investimentos.

O senhor é da opinião de que há linhas deficitárias que devem ser abandonadas porque as condições nas quais elas foram criadas já não existem mais?

As linhas e ramais ferroviários que serão necessários ao desenvolvimento do transporte ferroviário no estado deverão ser mantidos, remodelados e construídos, conforme o caso, de acordo com o planejamento previsto no PELT, no horizonte do projeto que é 2039. Para as linhas que estiverem fora deste planejamento deverá ser dada outra solução.

É possível dizer que a mudança de eixo do escoamento da soja para o norte do país influenciou indiretamente a malha ferroviária da região Sul?

O escoamento de parte da soja brasileira produzida principalmente no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul para o norte do país não influenciou a malha ferroviária da região Sul, no sentido da perda de importância. Muito pelo contrário, o aumento da produção naqueles estados valorizou ainda mais o escoamento de grãos pelos portos de Santos e Paranaguá, o que motivou a Rumo a investir cerca de R$ 2 bilhões para a modernização da infraestrutura no corredor que liga o oeste ao porto de Paranaguá. O que se observa é que a Rumo precisa investir em infraestrutura, locomotivas e vagões especializados e não possui recursos ou não deseja realizar os investimentos sem que haja a prorrogação dos contratos.

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