Brasil pode dar salto nos investimentos em infraestrutura graças às privatizações

Claudio Frischtak/ Divulgação,

Depois de chegar ao fundo do poço em 2015, quando o investimento em infraestrutura caiu para 1,80% do PIB, o Brasil poderá dar um salto e avançar 0,7 pontos percentuais, chegando a 2,5% do PIB, em 2018, graças às privatizações. Essa é, em síntese, a conclusão do estudo Oportunidades para a Privatização da Infraestrutura: o que fazer, como fazer, elaborado pelo economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter. B Consultoria Internacional de Negócios, a convite da CNI (Confederação Nacional  da Indústria).  “A privatização é parte essencial de uma reforma do Estado, e condição necessária para a modernização da infraestrutura no Brasil”, diz Frischtak em nota distribuída por e-mail à revista MODAL.

De acordo com o economista, a participação do setor privado é fundamental para a retomada dos investimentos em infraestrutura pelo menos por três fatores cruciais: Primeiro, por conta da fragilidade fiscal do Estado. Não se deve subestimar a gravidade da crise fiscal, e do seu impacto nos próximos anos na capacidade de investimento do Estado, já sobrecarregada pelas suas funções essenciais: saúde, educação e segurança pública. Segundo, as empresas do Estado – salvo algumas exceções – apresentam custos elevados e baixos níveis de eficiência, e não respondem às demandas da população. Mesmo empresas que já foram paradigmas de boa gestão, sucumbiram aos cartórios e às demandas das corporações. O bem estar da população e a produtividade da economia ficaram para trás. Terceiro, o uso político das empresas estatais se tornou regra num regime de presidencialismo de cooptação. Muitas empresas estatais foram tomadas de assalto; outras usadas sistematicamente para “comprar” apoio político de partidos, grupos e facções que orbitam em torno do Estado.

Esforço de duas décadas

“O patrimonialismo dos “donos do poder” vem destruindo a capacidade do Estado responder às demandas da população”, enfatiza.   Ele prevê que a modernização da infraestrutura no país irá requerer um esforço de cerca de duas décadas, condicionado a maiores investimentos de recursos públicos e principalmente privados. Outra questão relevante seria executar projetos de forma mais eficiente do que tem sido realizado nos últimos anos.   Em sua opinião, o histórico de baixo impacto do investimento em infraestrutura no Brasil está diretamente ligado à “limitada capacidade de execução do Estado” – no sentido de planejar, elaborar e escolher os projetos com maior relação benefício-custo, contratar sua execução, fiscalizar e assegurar sua integridade.   “Os recursos arrecadados pelo Estado – de magnitude considerável – são em grande medida gastos em transferências e despesas correntes; e aqueles voltados para infraestrutura vêm sendo comprimidos por conta da rigidez orçamentária, fragilidade das empresas públicas e crise fiscal.”

Fatores de atração do capital privado

Para atração do capital privado, o economista aponta o que define como fatores determinantes. Lembra que os investidores privados em última instância decidem com base na equação risco-retorno, isto é, na expectativa de retorno ajustada ao risco percebido.  “Quanto maior o risco, maior a exigência de retorno. Assim, o retorno total do projeto – ou seja, sua taxa interna de retorno (TIR) – deve ser suficientemente elevada para compensar o custo de capital  do investidor ponderado pelo custo da dívida e somado ao risco percebido ou calculado.” Continua: “Há riscos de natureza macroeconômica – fundamentalmente a volatilidade no crescimento, inflação e câmbio, e entre as variáveis essenciais – capturados nos indicadores de “risco país”. Porém, possivelmente ainda mais importantes – pela dificuldade de avaliar e estabelecer uma magnitude – são os riscos legais, contratuais, regulatórios relativos ao ambiente de negócios. A esses riscos é que os investidores privados no país estão cada vez mais atentos, pelo histórico nem sempre positivo dos anos recentes. Assim, um quadro legal que dê segurança jurídica aos entrantes; instituições (a exemplo de agências), regras e práticas que mitiguem o risco regulatório com base na transparência e previsibilidade; e um ambiente de negócios que gere confiança na estabilidade das regras do jogo são elementos essenciais de atratividade aos investidores.”

O Programa de Parcerias em Investimentos (PPI)

Lançado em setembro de 2016, o PPI, segundo o economista, rompeu como premissas equivocadas do governo anterior e lançou as bases de uma nova relação entre o setor público e privado.  “Talvez a diferença fundamental seja a não ambiguidade no governo quanto ao papel do setor privado, com uma visão mais construtiva e menos fragmentada, o que anteriormente gerava insegurança quando não paralisação dos projetos ou uma interlocução público-privada que facilitava a estruturação de modelos, projetos e iniciativas mais aderentes aos objetivos e limites do setor privado”, assinala Frischtak .

“Ao mesmo tempo, o governo sinalizou uma mudança de comportamento em relação às agências reguladoras, apoiando uma efetiva autonomia decisória e financeira, e a não ingerência política. Essa conjuntura vem gradativamente aumentando a credibilidade do programa, que deverá ter um impacto efetivo para o investimento em infraestrutura a partir de 2017, e acelerando em 2018. Neste sentido, deveria se contemplar a possibilidade de centralizar o programa de privatização de empresas e ativos de infraestrutura no BNDES. O Banco no passado já desempenhou adequadamente essa função e poderia voltar a fazê-lo, dados os recursos técnicos e financeiros de que dispõe.”

As respostas às fragilidades que os processos anteriores enfrentaram:
Tempos dos projetos. Todos os tipos de outorga (permissão, concessão, PPP, arrendamento) e privatizações são candidatos a fazer parte do PPI, exigindo-se, contudo, que a licitação dos empreendimentos seja condicionada à expedição da Licença Prévia ou das diretrizes para o licenciamento ambiental, dotando a execução do projeto de maior celeridade.
Qualidade dos projetos. O PPI dará suporte – em caráter oneroso – à estruturação de projetos de infraestrutura e elaboração de estudos para empreendimentos no âmbito do PPI, por meio de um Fundo de Apoio à Estruturação de Parcerias (FAEP), gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Vale lembrar que muitos projetos no passado não passariam pelo crivo de uma análise custo-benefício nem mesmo por um exame superficial de viabilidade econômico-financeira.
Competição pelo ativo. No âmbito das licitações, o PPI respeitará os tempos do setor privado, de modo que gere maior competição e consequentemente melhores propostas, sujeitas ao crivo da factibilidade, inclusive e particularmente pelas instituições financeiras. Ao mesmo tempo, o PPI sofrerá menor intervenção na definição dos retornos financeiros (a taxa interna de retorno – TIR), elemento que atrai um número maior de interessados e adiciona racionalidade e qualidade às propostas.

 

 

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Email
Threads

Últimas Notícias

Descarbonização e inovação na infraestrutura

Joelson Sampaio Num cenário global cada vez mais pressionado pelos efeitos das mudanças climáticas, a transição para uma economia de baixo carbono tornou-se prioridade na agenda dos projetos de infraestrutura. A descarbonização, entendida como o processo de redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases de efeito estufa, também tem ocupado a agenda do campo da infraestrutura. Integrar a descarbonização aos projetos de infraestrutura não é apenas uma necessidade ambiental, mas também uma oportunidade para impulsionar

Leia Mais »

Brasil pode ganhar um ciclo contínuo de expansão da malha ferroviária

Por José Serra O Brasil vive uma oportunidade rara de reorganizar sua infraestrutura logística, com base numa visão de Estado e em instrumentos inovadores de financiamento. A recente Política Nacional de Outorgas Ferroviárias, primeira da história, representa diretrizes que vão além do setor de transportes: trata-se de uma peçachave para uma reconfiguração estratégica do modelo de desenvolvimento econômico nacional. Ao reduzir custos logísticos, integrar regiões produtivas e ampliar a competitividade do país nas cadeias globais do comércio, as ferrovias operam

Leia Mais »

Prorrogação da concessão da Rumo : Codesul busca tempo para proposta regional da Malha Sul

A posição defendida pelos quatro estados que compõem o Codesul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul) sobre a renovação da concessão ferroviária da Rumo é de oposição à renovação imediata e de busca por uma prorrogação temporária e condicionada. Foi o que informou à Modal o secretário-adjunto  da Secretaria de Logística e Transportes (RS) Clóvis Magalhães. Segundo Magalhães, o Codesul, por meio dos seus governadores, não externou veto total à permanência da operação, mas

Leia Mais »
Não temos mais posts para mostrar

Descarbonização e inovação na infraestrutura

Joelson Sampaio Num cenário global cada vez mais pressionado pelos efeitos das mudanças climáticas, a transição para uma economia de baixo carbono tornou-se prioridade na agenda dos projetos de infraestrutura. A descarbonização, entendida como o processo de redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases de efeito estufa, também tem ocupado a agenda do campo da infraestrutura. Integrar a descarbonização aos projetos de infraestrutura não é apenas uma necessidade ambiental, mas também uma oportunidade para impulsionar

Leia Mais »

Brasil pode ganhar um ciclo contínuo de expansão da malha ferroviária

Por José Serra O Brasil vive uma oportunidade rara de reorganizar sua infraestrutura logística, com base numa visão de Estado e em instrumentos inovadores de financiamento. A recente Política Nacional de Outorgas Ferroviárias, primeira da história, representa diretrizes que vão além do setor de transportes: trata-se de uma peçachave para uma reconfiguração estratégica do modelo de desenvolvimento econômico nacional. Ao reduzir custos logísticos, integrar regiões produtivas e ampliar a competitividade do país nas cadeias globais do comércio, as ferrovias operam

Leia Mais »

Prorrogação da concessão da Rumo : Codesul busca tempo para proposta regional da Malha Sul

A posição defendida pelos quatro estados que compõem o Codesul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul) sobre a renovação da concessão ferroviária da Rumo é de oposição à renovação imediata e de busca por uma prorrogação temporária e condicionada. Foi o que informou à Modal o secretário-adjunto  da Secretaria de Logística e Transportes (RS) Clóvis Magalhães. Segundo Magalhães, o Codesul, por meio dos seus governadores, não externou veto total à permanência da operação, mas

Leia Mais »
Não temos mais posts para mostrar

Sua marca entre os principais players da logística nacional

A Revista Modal oferece espaços publicitários e oportunidades de parceria para empresas que desejam se destacar no setor.

Entre em contato e solicite nosso Mídia Kit.