Abrapch avalia como positivo o resultado do leilão A-6 e prevê a retomada das hidrelétricas com reservatórios

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Paulo Arbex, presidente da Abrapch

Apesar da contratação de 110,8 MW de PCHs e CGHs, em comparação a 81,3 MW do leilão A-4, realizado em 28 de junho, Paulo Arbex, presidente da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas (Abrapch), não ficou de todo surpreso com o resultado do leilão A-6, realizado na sexta-feira, 18 deste mês. “Reconhecemos o avanço na contratação de centrais hidrelétricas, mas acreditamos que quando a economia estiver em recuperação o volume poderá ser maior até chegar aos 600 MW, patamar que entendemos seja o necessário para essa imensa cadeia setorial de uma fonte que gera o maior número de empregos e de maior qualidade”.
Em entrevista à MODAL, Arbex prognosticou a retomada, no Brasil, da construção de reservatórios, seja de pequena, micro ou grande hidrelétrica.“Nós vimos, no Fórum Mundial da Água deste ano, que todos os países, sem exceção, estão com problemas de abastecimento de água. Ou seja, é um recursos ultra escasso e essencial à vida, à dignidade humana e ao desenvolvimento econômico. E quando você tem um recurso desses, o que você faz? Você reserva. Você estoca em reservas estratégicas, como o mundo todo está fazendo hoje”.

Segundo Arbex, “a difamação e demonização dos reservatórios que ocorreu no Brasil nos últimos 20 anos está na contramão da história, da racionalidade e do bom senso”. Ele lembra que o país já enfrentou falta d’água no ano passado para irrigação, na indústria e até para o abastecimento de moradores de grandes cidades. “Chegou a hora de revermos este preconceito irracional e retomarmos a construção dos reservatórios que são essenciais também para o meio ambiente”.
Acompanhe:
Com o a Abrapch avalia os resultados do último leilão, em que houve um avanço na contratação de PCHs e CGHs?
De fato, houve um progresso. Lembramos que o presidente Jair Bolsonaro, como parlamentar, foi um dos primeiros a aderir à Frente Parlamentar das PCHs. O ministro Bento  Albuquerque, desde o começo, tem dito que reconhece a importância e os benefícios das pequenas hidrelétricas e tem aumentado a sua contratação. É certo que podia ter contratado um pouco mais de CGHs e PCHs, mas reconhecemos o avanço. Esperamos e torcemos para que, no ano que vem, a economia esteja crescendo de uma forma mais acentuada com o resultado das reformas em andamento, e seja possível a contratação de volumes maiores, até chegar aos 600 MW. Patamar que o setor entende que seja o  volume necessário para recuperar e fazer crescer essa cadeia setorial de micro, pequenos e médios produtores de uma fonte que gera maior número de empregos e de maior qualidade. Não gera emprego só para instalador ou para manutenção. Gera emprego na indústria, nos serviços, na engenharia e até na área de desenvolvimento tecnológico. São empregos de qualidade excepcional que precisam ser preservados. Além de tudo isto, é a fonte mais econômica de todas.

Existem usinas muito antigas ainda em operação?
Há dezenas de usinas hidrelétricas operando há mais de 100 anos, uma delas há 136 anos com a mesma barragem e a mesma casa de força. Não há nada mais eficiente e mais ambientalmente correto do que uma usina que dura há séculos, com custo de operação e manutenção mínimo, sem produção de resíduo, quase nenhum, apenas uma troca anual de óleo de lubrificação dos mancais das turbinas. Essa troca é feita com todo o cuidado, já que o envio desse óleo é encaminhado para aterros sanitários, sendo descartado com todas as precauções ambientais possíveis.

O resultado do leilão mostra uma boa sinalização para o setor…
Ficamos satisfeitos com o aumento da contratação de PCHs e CGHs. O volume ainda não é o necessário para que a cadeia cresça e floresça, muito menos ainda para recuperar a baixíssima contratação dos últimos 20 anos, mas é um começo, uma boa sinalização para os empreendedores do segmento e para o consumidor também, porque chega de contratar térmica cara, chega de contratar usinas que precisam da construção de milhares de km de  linhas de transmissão para conectar o sistema elétrico nacional, e isso por conta do consumidor.

As hidrelétricas ainda são as que mais produzem energia na matriz energética nacional…
Vamos contratar o que é melhor para o país. Afinal, são as hidrelétricas que estão carregando o piano. Se você for olhar o quanto estão entregando de MW ao SIN e quanto estão ganhando, você vai notar um desequilíbrio. As hidrelétricas são as que mais entregam e que menos recebem por isso.  Para ter uma ideia, de 2013 a 2018, as hidrelétricas entregaram 50,7% do total de MWhs consumidos pelo Brasil e receberam R$ 161 bilhões, as termoelétricas fósseis entregaram em torno de 18,75% -pouco mais de 1/3 das hidrelétricas- e ficaram com R$ 132 bilhões do faturamento total. Não tem cabimento.

O ex-ministro José Goldemberg declarou que seria um atraso se o Brasil não retomar a construção de hidrelétricas com reservatórios. A Abrapch acredita nessa retomada?
Nós acreditamos, sim. Já estivemos pessoalmente reunidos com o professor José Goldemberg e  sabemos que ele defende hidrelétricas com reservatórios, independentemente do tamanho. Somos a favor. O fato é que as grandes hidrelétricas competem com as pequenas hidrelétricas e contam com ganhos de escala maiores, mas custos de conexão superiores. Apesar disso, não vou ser falso, ir contra o interesse do país e dizer que as grandes hidrelétricas não são desejáveis. Elas são desejáveis e necessárias. Nós defendemos sim a retomada da construção das grandes hidrelétricas também, apesar de serem nossos competidores, porque acreditamos que não nenhum segmento deve colocar seus interesses acima dos interesses do Brasil.

Qual o principal ponto para a retomada?
Além da retomada da construção de reservatórios, entendemos que os principais pontos são: (a) a retomada de uma contratação de pelo menos 600MW médios por ano, (b) o reestabelecimento da isonomia entre as fontes -respeitando as diferenças entre pequenos e grandes empreendedores entre fontes e entre empresas de uma mesma fonte- e (c) o reestabelecimento de critérios ambientais justos e proporcionais aos danos causados por cada empreendimento. Hoje é exigido das pequenas hidrelétricas cuidados com o meio ambiente de padrão quase hospitalar, enquanto se fecham os olhos para os danos de outras fontes com impacto ambiental infinitamente maior. Aprovam-se, por exemplo, térmicas fósseis de mais de 500 MW, em quatro e oito meses, com baixíssimas exigências de compensações ambientais, enquanto o licenciamento de micro-hidrelétrica de 1MW tem levado até 10 anos para sair com o dobro de exigências de compensações ambientais. O resultado é a contínua degradação do meio ambiente que temos assistido nos últimos 20 anos e a sucessão de desastres ambientais.

Uma das advertências do Fórum Mundial da Água deste ano foi justamente sobre a crise mundial de escassez…
Especificamente com relação à retomada da construção de reservatórios, seja de pequena hidrelétrica, micro ou grande hidrelétrica, há um ponto essencial que se constitui em uma questão que ninguém vê. A Abrapch participou, em março do ano passado, do Fórum Mundial da Água,  um evento que teve a presença de representantes de mais  de 150 países, em que se pôde constatar que todos os países, sem exceção, estão com problemas de abastecimento de água para consumo humano, para irrigação, para a indústria, etc. Por quê? Porque 97% de toda a água do planeta é formada por oceanos, água salgada imprópria para o consumo. Os 3% que sobram estão muito concentrados em geleiras e águas subterrâneas. Já as águas de rios e lagos são equivalentes a 0,01% do total da água do planeta. Ou seja, trata-se de um recurso ultra  escasso e essencial à vida, à dignidade humana e ao desenvolvimento econômico. E quando você tem um recurso que é tão escasso assim, o que você faz? Você reserva. Você estoca em reservas estratégicas. O Brasil está na contramão da história nesse sentido. Eu vi, no Fórum Mundial da Água, que todos os países, sem exceção, têm planos de construir novos reservatórios para estocar a água, tanto para geração de energia elétrica como para consumo humano, irrigação e indústria. Enquanto isto o Brasil difama e demoniza os seus reservatórios. Isto é um problema muito sério que extrapola em muito a questão da geração de energia elétrica. Isto é um enorme limitador do crescimento de nossa agricultura, pecuária e indústria e também uma ameaça ao abastecimento das grandes cidades. Os concorrentes mundiais do nosso agronegócio devem estar adorando.

Qual o segmento que consome mais água?
A água é a matéria prima oculta de tudo que se produz, mas os setores econômicos que mais consomem água são a agropecuária com 60% do total da água, seguida pelo abastecimento humano com 24% e indústria com 9%. As hidrelétricas não consomem uma gota sequer, apenas aproveitam a força da passagem da água por suas turbinas para gerar energia e a devolvem ao rio, mais limpas e oxigenadas que receberam. Infelizmente, esta informação não chega para a maior parte da sociedade. Muita gente acha que a hidrelétrica consome água e ameaça o abastecimento, quando o que ocorre é justamente o contrário. Com base nessa realidade, nós estamos levando para o setor agropecuário uma proposta de fazer o seguinte: as hidrelétricas constroem e operam os reservatórios e o pessoal da agricultura não precisa investir um centavo, nem correr riscos, nem se responsabilizar pelo custeio da operação e manutenção do barramento. As hidrelétricas geram energia e, quando a agricultura precisar de água para irrigar, que será somente no período da seca, poderá retirar a água de nossos reservatórios, desde que não falte o necessário para gerarmos o que se precisa entregar de energia. Caso não falte agua para geração, eles não irão pagar nada. Se faltar água para gerar e a PCH precisar comprar energia no mercado para cumprir seu contrato, o agricultor pagará apenas o valor equivalente, que deve variar de R$ 0,05 a R$ 0,20 o metro cúbico.

A proposta já está pronta?
Estamos começando, é ainda é embrionária. Vamos levar para o governo assim que concluirmos. A  retomada da construção de reservatórios no Brasil é inevitável, não somente para a geração de energia elétrica, mas para o futuro de nossa agricultura, da nossa pecuária, para o abastecimento de nossas cidades – vamos lembrar que no ano passado faltou água em São Paulo, Rio, Minas. Brasília só não teve racionamento porque tirou água do Lago Paranoá cujo reservatório é nada mais do que a PCH construída por Juscelino Kubistchek para fornecer energia elétrica para Brasília, para embelezar a cidade e melhorar o seu microclima. Além de embelezar a cidade e garantir a segurança do abastecimento humano, a PCH ainda gera energia.

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