Acelerar a transição energética

Edvaldo Santana (*)

Deduzir que a atual escassez de eletricidade na Europa é explicada pela transição energética, que teria privilegiado fontes como eólica e solar em detrimento da segurança do fornecimento, é tão sem lógica quanto afirmar que a cidade do Rio de Janeiro, onde fica um Tivoli Park, e Aracaju, com um bairro chamado Suíssa (sic), são tão seguras quanto Copenhage e Zurich.

Se o uso de gás natural representasse segurança, um país com 100% da eletricidade produzida por esse combustível estaria com a oferta garantida. Porém, como a escassez de energia, que elevou absurdamente a tarifa, é fruto de restrições impostas por Vladimir Putin, em retaliação às sanções pela invasão da Rússia à Ucrânia, depender do gás é a razão da vulnerabilidade europeia.

Veja o caso da Inglaterra: 55% da oferta de eletricidade vêm de fontes renováveis e 40% do gás. Em princípio, a situação seria confortável. Metade do gás é extraída no Mar do Norte por empresas inglesas. Mas é insignificante a capacidade de armazenamento do gás, o que deixa a terra da Rainha sujeita ao preço spot. Uma conta média anual de luz pode passar de £ 2.000 (R$ 13,000), antes da crise, para £ 5.000 (R$ 33.000) no inverno.

E lá teve outro problema inesperado, uma lição para o Brasil. Os consumidores livres, cujas tarifas seriam blindadas ao preço spot, estão a sofrer tanto quanto os demais. Mais de trinta comercializadoras, que compravam energia para lhes revender, quebraram. Não suportaram o tranco do mercado, deixando-os expostos.

Na Alemanha, 32% da oferta vêm da eólica e solar, 13% da nuclear, 38% carvão mineral e linhito, 7% gás natural e 3% da hidrelétrica. É uma matriz bem diversificada, com certa predominância de combustíveis fósseis, logo, muita energia firme. Mas os preços subiram como na Inglaterra, apesar de o gás participar com apenas 7%. É que a indústria alemã, grande usuária de gás, boa parte vindo da Rússia, fragilizou o setor elétrico.

Um brutal racionamento acontecerá na Europa, sobretudo na primavera e inverno próximos. Alguns países já o iniciaram de forma preventiva, numa tentativa de reduzir os efeitos da escassez. Outros, como a Espanha, adotam medidas mais heterodoxa, como zerar o preço do transporte coletivo, para reduzir o uso de gás e óleo.

Por tudo isso, acelerar a transição energética é solução, e não o contrário. Depender do gás russo explica a escassez e a disparada das tarifas na Europa. Com mais eólica, solar e biomassa na matriz, a crise até poderia existir, mas em proporção bem menor. O uso intensivo de fontes renováveis não elimina outras fontes flexíveis, como o gás, que as substitui quando não há vento ou radiação solar. Mas a utilização do gás seria a mínima possível, apesar da demanda industrial.

No Brasil, a crise de 2021, com os consequentes aumentos de tarifas, seria muito menor se a matriz elétrica já contasse com mais renováveis, sem subsídios, claro, reforçadas pela flexibilidade do gás. Mas não custa lembrar que o gás, mesmo que 85% nacional, tem seu custo determinado por uma cesta de preços externos, uma tática eficaz para camuflar preços influenciados por cartéis.

(*) Doutor em Engenharia de
Produção e ex-diretor da Aneel

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