Mercado livre de energia tem forte tendência de abertura e vive novo boom de migração, diz Scarabelot da Engie Soluções

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Álvaro Scarabelot, gerente de gestão de riscos e inteligência de mercado da Engie Soluções

Por Milton Wells -mwells.revistamodal@gmail.com

Com os preços de energia em queda devido à melhora do regime de chuvas e da queda da carga provocada pela redução do nível de atividades no país, como efeito da pandemia do covid-19, o segmento do mercado livre de energia apresentou no primeiro semestre do ano uma onda de migração somente comparada ao ano de 2016.

As economias projetadas nos contratos que estão sendo negociados perfazem entre 25% a 30% em relação ao preço das tarifas no mercado regulado, o que prenuncia para o ano de 2020 um dos melhores exercícios dos últimos tempos, segundo afirma o engenheiro Álvaro Scarabelot,  gerente de gestão de riscos e inteligência de mercado da Engie Soluções, nesta entrevista a Milton Wells da MODAL. A seguir, leia os principais trechos:

Como tem sido a tônica do mercado livre nesses meses de Covid-19? Qual a tendência no prazo dos novos contratos?
Com os preços de energia em queda, em função da melhora do regime de chuvas e da queda da carga, e da projeção de pressão nas tarifas de energia em função da conta Covid mais os aumentos recentes nas tarifas de energia temos observado uma segunda onda de migração ao mercado livre nesse primeiro semestre de 2020, que só perde em número de migrações ao mês para o ano de 2016. As economias hoje projetadas estão na casa de 25% a 30%. Com relação às contratações de energia temos visto uma forte tendência de compra de contratos de mais médio e longo prazo. Acima de quatro ou cinco anos. Dois fatores tem se destacado nessa tendência: (i) projeção de inflação mais baixa para o longo prazo (não pressionando tanto o preço futuro a ser corrigido) e (ii) preços de energia de longuíssimo prazo mais baixos – chegando a 115 R$/MWh em 2030, por exemplo.

 Mesmo com a pandemia o mercado não parou?
Não. O mercado livre seguiu com suas operações de modo normal. Contudo, os meses de abril/maio foram meses de intensas negociações de contratos. Vários consumidores tiverem que abrir negociações com seus fornecedores para renegociarem suas sobras de contratos. Os segmentos que mais tiveram reduções em seus consumos foram: automotivo, metalurgia e serviços (reduções entre 30% e 65%).   Por fim, a próxima década será de fortes alterações no modelo do setor elétrico. Alterações na granularidade do preço, participação maior das fontes renováveis intermitentes na matriz de geração, abertura do mercado livre, separação do lastro e da energia, remodelagem da geração distribuída, inclusão de novas tecnologias, derivativos de energia, bolsa de energia, medidores inteligentes, carros elétricos, armazenamento com baterias, comercializador varejista, agregador de carga, separação da tarifa em binômia para a baixa tensão entre outros. Alguns desses temas já são realidades e estão amadurecendo e ganhando espaço no setor elétrico. É um tempo que requer do consumidor muito atenção e monitoramento para que nenhuma oportunidade seja perdida ou sua potencialidade reduzida. Um novo mercado se aproxima.

Qual a comparação do preço de energia no mercado livre hoje com a tarifa de energia das distribuidoras? Nos últimos cinco anos, qual foi a redução obtida?
Atualmente, os preços de energia, na média para os próximos cincos anos, no mercado livre estão na faixa de 150 R$/MWh. Do outro lado, a média nacional das tarifas de energia gira entorno de 260 R$/MWh. Ambos, preço e tarifa sem ICMS. No comparativo, o preço de energia do mercado livre gera, em média, mais de 42% de economia quando comparado a tarifa de energia.  Em média, o custo da energia representa 60% da conta final do consumidor (lógico, dependendo do seu perfil de consumo). Logo, no que tange a redução do custo total da conta de energia para o consumidor, o saving fica em torno de 25% a 30%. No acumulado dos resultados dos últimos cinco anos, a economia verificada fica próxima de 23% pró os consumidores do mercado livre.

Quais os riscos que os consumidores correm ao aderir ao mercado livre?
O mercado livre de energia é um ambiente mais complexo e que exige atenção e gerenciamento. De toda sorte, a maioria dos riscos são minimizados e contornados com uma adequada gestão de energia. Atualmente, os maiores riscos do mercado livre estão associados à contratação de energia. A estratégia de compra de energia deve ser realizada de modo muito acurado e com expertise de um time capacitado. O “momento” da contratação é fator inexorável para o sucesso do mercado livre. Os preços são muito voláteis e estratégias equivocadas podem colocar o saving do projeto em risco. Outro ponto de atenção está relacionado ao volume contratado. O consumidor do mercado livre tem a obrigação de se manter lastreado em 100% de sua necessidade, estratégias no sentido de desenhar um produto aderente aos riscos de carga do cliente precisam ser feitos com inteligência. Os eventos financeiros atrelados a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) também requerem atenção e gestão proativa. De modo geral, todos esses riscos são perfeitamente passiveis de serem contornados com a contratação de uma equipe especializada em gestão do mercado livre, como, por exemplo, a Engie Consultoria – líder de mercado.

 Existe ainda muita burocracia  no Brasil para formalizar o ingresso ao mercado livre? Muitos documentos?
Sim, existe procedimento especifico que precisa ser respeitado no que tange a adesão ao mercado livre. O processo é bem rigoroso e exige muita atenção e cumprimento de prazos específicos. Isso envolve todo o processo de documentação e adequação do sistema de medição e faturamento (SMF)  para que o agente na câmara seja aprovado. Contudo, uma consultoria especializada conhece todo o processo e possui expertise para conduzir para o cliente a migração ao mercado livre sem maiores percalços. Todo o processo se bem conduzido dura aproximadamente seis meses.

Por que apenas 30% do consumo de energia é comercializado pelo mercado livre no Brasil , já que essa legislação existe desde 1995?
Na verdade se observarmos a legislação vigente, que permite somente consumidores de alta/média tensão com demanda maior que 500 kW migrarem, iremos verificar que aproximadamente 80% dos consumidores com esse perfil já aderiram ao mercado livre. Atualmente, são 20 GW de carga no mercado livre e somente mais 5 GW com potencialidade para migrar. Em síntese, o que podia migrar na sua grande maioria já migrou, o que precisamos agora é alterar “a regra do jogo” para que mais consumidores possam ter direito de acesso a esse mercado. Tivemos uma forte expansão do mercado livre em 2016 e estamos vendo uma segunda onda de migração em 2020. Enfim, a tendência é que tenhamos uma liberalização total já para a alta/média tensão até 2026/27, fazendo com que aproximadamente 150 mil consumidores industriais de pequenos portes passem a ter direito de acesso ao mercado livre.

Até que ponto será preciso alterar as regras atuais para que as mudanças previstas para a abertura do mercado livre seja implementada?
O tema abertura do mercado requer muita atenção e carece de muitos aperfeiçoamentos e debates sobre as legislações vigentes e de alterações do modelo atual do setor elétrico. Uma liberalização de aceso total ao mercado livre traz diversas preocupações.

Você poderia listar essas preocupações?
São diversos temas a serem criteriosamente endereçados e equacionados. Em linhas gerais, o mercado livre será liberalizado e totalmente aberto  – tanto para a alta quanto para a baixa tensão-, contudo, será necessário um processo de transição que deve seguir com uma abertura lenta e gradual. Os principais temas que devem ser observados nesse processo de transição são: respeito aos contratos legados do mercado cativo, minimizar os custos de transição que podem ocorrer ao longo do processo de implementação, evitar aumento de tarifa para os consumidores e criar um ambiente saudável e propício para a manutenção dos investimentos para o crescimento e expansão do sistema elétrico.

 A abertura de mercado exigirá universalizar a tarifação binômia de energia.  Isso vai implicar em mudanças de medidores de faturamento?
Sim, a abertura do mercado livre para a baixa tensão irá exigir a abertura da atual tarifa monômia para binômia. Será necessário separar os sinais de custos da rede e energia. Essa separação irá exigir que medidores inteligentes sejam instalados para realizarem as devidas medições.

 

 

 

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