Compromisso dos novos controladores da CEEE irá muito além do mercado de energia do RS, diz Guilherme Sari

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Guilherme Sari, presidente do Sindienergia-RS

Guilherme Sari, presidente do Sindienergia-RS, em entrevista por e-mail a MODAL, prevê um novo dinamismo para o setor de energia do Rio Grande do Sul, a partir da privatização do Grupo CEEE, cujo processo obedecerá a dois leilões sucessivos: da CEEE-D, que terá sessão pública em 3 de fevereiro, e da CEEE- GT, ainda no primeiro semestre do ano.
“A retomada dos investimentos na área de concessão que ainda pertence à CEEE-D, engloba 72 municípios, e também nos ativos da CEEE-GT, vejo como uma ação inevitável frente ao atual cenário”, diz Sari.

No caso da CEEE- GT, sua expetativa vai além das fontes em que a estatal já participa, como hídrica e pequena participação em empreendimentos eólicos. Ele espera igualmente uma maior participação do novo controlador em novos projetos eólicos, assim como no setor de geração distribuída,  de eficiência energética e de frentes de térmicas renováveis, como biogás e biomassa.

Sari também  chama a atenção para o fato de que o grupo CEEE sempre foi uma referência no setor energético e também no âmbito cultural e ambiental do estado  “Por isso, o possível novo investidor precisa levar em conta que a instituição CEEE tem um compromisso que vai muito além do mercado de energia”, pontua o líder do Sindienergia-RS. Acompanhe os principais trechos:

As privatizações do setor elétrico no Brasil

Entendo as privatizações do setor elétrico como um processo necessário frente ao que vinha acontecendo nos últimos anos. Encarar o processo como um duelo político ou somente ideológico é ser muito simplista, uma vez que importantes investimentos na economia acontecerão e seguem acontecendo devido ao mercado aberto e competitivo. Precisamos de fato admitir que relevantes investimentos e desenvolvimento foram realizados com empresas do setor público, e que a mão do governo em obras de infraestrutura associados à transmissão, distribuição, e mesmo geração, foram de fato fundamentais para o crescimento do país em um momento necessário.

As vezes em que o Estado foi invasivo e parcial

Mas temos que reconhecer que o Estado, por muitas vezes, foi invasivo e parcial, criando cenários de poucas oportunidades para investimentos do setor privado, e deixando o país extremamente alavancado por empresas estatais e por gestores públicos que, por diversas vezes, não pensaram necessariamente nos investimentos em si e acabaram atrasando diversos cronogramas, com falta de planejamento em infraestrutura, distribuição, transmissão e, mesmo geração, deixando o país, em determinados momentos com desabastecimento de energia – vide caso do apagão de 2001. Claro que também potencializados por uma política energética baseado nas usinas hidrelétricas. Sem contar nos leilões de energia que em muitos casos foram vencidos por empresas públicas com preços que beiraram quase que a inviabilidade dos projetos – tanto que em muitos casos a energia foi recontratada no mercado livre ou os empreendimentos foram vendidos por valores abaixo do mercado para compensar os investimentos realizados.

O episódio que deixou o RS sem margem de conexão

Podemos trazer o caso para o RS e vamos ver a questão da infraestrutura de conexão do estado que até meados de 2014 atendia o crescimento do estado na implantação de projetos de energia e, por uma sucessão de eventos, governos e desgovernos, deixou o RS sem margem de conexão até os dias de hoje. E que por diversas ações de entidades, pressão do setor, incluindo diversos atores políticos entre outros levaram a um novo edital que, desta vez foi vencido por algumas empresas do setor privado e que agora estão conseguindo entregar uma infraestrutura de transmissão que era para estar pronta no ano de 2018. Ou seja, o RS teve um prejuízo gigantesco que o impediu  de participar de diversos leilões de energia e isso gerou perdas bilionárias.

A  privatização da CEEE-D  e os compromissos do novo controlador

Mais uma vez precisamos pensar no potencial existente e o que pode ser realizado para criar ainda mais valor para uma empresa que sempre foi uma referência no setor energético e também no âmbito cultural e ambiental. A CEEE sempre se posicionou como uma empresa destacada também nessas áreas. No processo de privatização, o possível novo investidor precisará levar em conta que a instituição CEEE tem um compromisso que vai muito além do mercado de energia. Agora, precisamos estar cientes que as entregas no setor energético, tanto na distribuição, como na transmissão e geração precisam ser realizadas de forma exitosa. O grupo tem muitos ativos interessantes, mas tem uma necessidade de readequação de serviços e principalmente um fôlego financeiro para atendimento dessas demandas. E isso precisa ser considerado. Neste ponto é necessário ser cirúrgico e avaliar a melhor oportunidade para isto acontecer. Temos que tratar negócio como negócio. Se o que se quer é maior eficiência e menores custos operacionais, precisamos nos adequar à nova realidade. E acredito que seja isto que será buscado neste novo momento. Momento este que será de mudanças, mas de cobrança para que o novo acionista tenha preocupações em entrega de serviços, redução de custos e despesas, reinvestimento e, sobretudo, em melhorias para todos os gaúchos. De uma forma que se sinta novamente orgulho de uma empresa e colaboradores que representam muito para a sociedade do RS.

A privatização da CEEE-GT e a retomada de investimentos em geração de várias fontes de energia e transmissão

Entendo como uma ação inevitável frente ao atual cenário. Os investimentos do setor são fundamentais e precisam realmente voltar a dar o protagonismo necessário para a empresa que venha a assumir este desafio de atendimento a uma gama muito importante de municípios, incluindo a capital, e serviço para a população do RS. Vemos com bons olhos investimentos da entidade em fontes que hoje já participa, como hídrica, e de outros que poderá ter maior participação como projetos eólicos com maior protagonismo, assim como o setor de geração distribuída e, por que não, de eficiência energética e de frentes de térmicas renováveis como biogás e biomassa.

Outros  benefícios que o novo controlador da empresa pode trazer para o estado

O novo controlador precisa entender que estamos falando de uma empresa que sempre teve uma atuação destacada no cenário estadual. Com a separação das áreas de concessões, começou um processo de divisão de prestação de serviços com outras empresas – agora uma única pela aquisição da CPFL Energia em relação à operação AES Sul – e que acabou gerando uma competividade natural entre a qualidade de serviços de cada empresa. Mas o fato de agregar investimentos e ações em prol do crescimento do estado em uma dinâmica de um excelente potencial a ser explorado como serviços eficientes e dinâmicos na parte de distribuição associados a investimentos necessários. Engajamento no planejamento da infraestrutura de transmissão que precisa ainda ser aumentada, principalmente quando pensamos nas linhas estruturantes para atendimento de diversos projetos de energia que não foram atendidos pela conexão atual dos lotes 10 a 14 – boa parte advindos do antigo Lote A –  e que serão necessários para escoar diversos projetos desenvolvidos e em desenvolvimentos que não terão margem mesmo com o grande investimento atual realizado. Sem contar com uma demanda crescente em geração pelo atual status do RS de ser um estado importador de energia. Com o objetivo de aumento do protagonismo perante os demais estados brasileiros haverá uma demanda crescente de energia e inclusive de exportação visando países vizinhos e que tem recursos energéticos escassos, caso da Argentina. Enfim, será um desafio grande, mas uma oportunidade de igual ou maior tamanho.

Como a entidade avalia o futuro cenários do RS no setor elétrico a partir da presença desses novos players

Este sinceramente é um ponto que nos questionamos bastante. O motivo para esta importante instituição não fazer parte do Sindienergia-RS e reforçar as demandas do setor e representatividade perante ações internas junto ao governo, mas também externas na busca da atração de novos investidores. Temos uma ação conciliadora e de busca de união para demandas do setor. Sabemos que o momento atual da CEEE é de grandes mudanças, mas também sabemos que podemos andar juntos neste processo. Esperamos sinceramente esta ação junto ao novo controlador e fazer este entender que muitos dos desafios serão encarados de forma conjunta e que a representatividade e parceria será fundamental. Temos pleitos importantes do setor para atuar e devemos contar com toda grande empresa que estiver atuando no estado para isso. Somos e seremos sempre parceiros dessas empresas e vamos estar juntos nas ações necessárias e que precisam ser resolvidas. Entendemos que muitas vezes a exposição de uma empresa é desgastante no papel com o ente público, seja governo, secretaria, entidade ambiental ou outros. E este é o papel do Sindienergia-RS nesta composição. Poder dar voz para as empresas que muitas vezes não querem enfrentar o desgaste em negociações e continuidade de desenvolvimento e de investimento e trabalho junto das entidades locais.

Autossuficiência energética

Por que não nos tornarmos autossuficientes e ao mesmo tempo uma região com segurança energética para podermos promover o aumento de indústrias nacionais e multinacionais que necessitam de uma grande carga de energia na produção? Temos um setor primário diferenciado, diversas indústrias locais, proximidade do centro de carga de consumo energético brasileiro. Aproximação de importantes países consumidores de energia (casos da Argentina e Paraguai). Uma vasta gama de recurso energético: seja ele eólico, hídrico, térmico (renovável e não renovável), sem falar na geração distribuída que é o segundo estado da federação em potência instalada mostrando a importância que os gaúchos dão culturalmente para geração própria de energia. E ainda um grande potencial offshore do estado que inclui lagoas, com uma vantagem competitiva de obras civis e ainda de utilização com custos muito inferiores aos projetos de offshore no mar que é a realidade mais conhecida e debatida no mundo inteiro.

 

 

 

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