Cultivo do triticale tem potencial para reduzir dependência de etanol do RS

Alfredo do Nascimento/Divulgação

O anúncio da BSBIOS, de Passo Fundo, de que passará a produzir etanol no RS a partir do processamento de cereais, entre esses o triticale, vem provocando uma série de consultas de investidores junto à Embrapa Trigo, de Passo Fundo.

Empresa estatal voltada para a inovação, que aborda a geração de conhecimentos e tecnologias para a agropecuária brasileira, a unidade desenvolve pesquisas sobre o triticale desde 1977.  O engenheiro agrônomo Augusto Carlos Baier foi o pioneiro no estudo desta espécie no Brasil, que após a sua aposentadoria passou a ser conduzido pelo seu colega Alfredo do Nascimento Júnior.

O triticale, um híbrido entre trigo e centeio, segundo Nascimento, detém muitas vantagens como matéria-prima para a produção de etanol. Além de não competir com a indústria de alimentação humana, também é mais resistente à seca, fungos e insetos e requer menor aporte de nutrientes.   Hoje, no Brasil,  o triticale é principalmente plantado para alimentação animal dado ao seu custo relativamente baixo em comparação com outros cereais e pela qualidade proteica do produto, principalmente dos aminoácidos essenciais como triptofano e lisina, por exemplo.

De acordo com o Conab, a produção de triticale em 2021 foi de 43,0 mil toneladas. Neste ano chegará a 48,4 mil toneladas. A área plantada deve evoluir de 15,1 mil hectares para 16,5 mil hectares.

Produção atual é destinada para alimentação animal
O Paraná, com uma produção de 28,4 mil toneladas é o estado líder, seguido por São Paulo com 10,4 mil toneladas e RS com 9,6 mil toneladas. No RS, no verão, são plantados 7,5 milhões de hectares de vários cultivos, soja em sua maioria. No inverno, apenas cerca de 1,1 milhão é cultivado com cereais próprios ao clima, entre eles o triticale cuja produção é totalmente dirigida para semente ou alimentação de suínos e aves.

De acordo com Nascimento, o avanço da área a ser cultivada de triticale, no RS, além da demanda, dependerá da oferta de sementes, que deve ser planejada e efetivada dentro da cadeia produtiva. Todavia, em razão da existência de pouco mais de seis milhões de hectares disponíveis no inverno para cultivo no estado, o engenheiro defende   que essa área disponível poderia ser otimizada com o cultivo de trigo, triticale, centeio, canola, trigo mourisco, linhaça, cevada, aveias forrageiras e grãos, pastagens diversas entre gramíneas e leguminosas, e, mais as plantas de cobertura para rotação e ciclagem de nutrientes.

 

triticale

Triticale/ Foto: Alfredo do Nascimento Júnior

“Desses 6 milhões de hectares, acredito que entre 500 mil hectares a um milhão de hectare poderiam ser usados com triticale, resultando em produção de 2 a 4 milhões de toneladas. Isso, desde que a cadeia produtiva esteja de acordo, desde o produtor de sementes até a indústria, passando obrigatoriamente pelo produtor rural e que este tenha rentabilidade adequada com estas produções”, acrescenta.

Nascimento assinala que  a Embrapa está preparada com sementes de cultivares adequadas às necessidades do setor produtivo em primeira escala. A produção de sementes para atender o setor produtivo em escala comercial, tanto do produtor quanto da indústria passa obrigatoriamente por estruturação do sistema produtivo.

“Na atualidade,  esses cultivares atendem as necessidades qualitativas das indústrias de rações para suínos e aves, mas o RS possui materiais adequados para atender também a indústria de etanol ,quando esta se tornar realidade, se assim o modelo produtivo exigir, inclusive com corpo técnico altamente capacitado para repassar informações técnicas de cultivo e aproveitamento das áreas sem, necessariamente, afetar a atual produção de alimentos, seja para a alimentação humana ou animal”, explica Nascimento.

Capacidade de produção

Sobre a capacidade de produção, o engenheiro explicou que o trabalhos iniciais, desenvolvidos com amostras produzidas no RS, apontam que seria possível produzir até 420 litros de etanol com uma tonelada de grãos de boa qualidade de triticale. “Acredito que hoje a média poderia ser de 360 litros de etanol por tonelada de grãos, podendo chegar ao máximo de 420 com uso de técnicas de manejo e cultivo adequadas, preconizadas pela Embrapa. Essa informação ficará mais clara quando as indústrias forem instaladas e considerarmos a eficiência de cada usina, pois o rendimento é variável dependendo da planta produtiva”, completou.
Preço
Sobre o preço do quilo do grão a ser vendido pelos produtores à indústria, Nascimento informou que dado à inexistência deste mercado para etanol no RS, ainda não existe preço definido.

“As indústrias deverão calcular valores adequados para atender as necessidades da indústria, a quem caberá estabelecer os valores que sejam bons para a produção de etanol e para o agricultor/produtor”.

Atualmente a  semente de triticale que conta com valor agregado e custo de produção maior é comercializada  por R$ 2,80 o quilo. O grão, de boa qualidade, é vendido para ração ou alimentação humana.

Hoje, a demanda de etanol no RS  é de 1,5 bilhão de litros por ano, com uma oferta local de apenas 0,3% desse volume. Com eficiência média de 360 litros de etanol por tonelada de grãos, média de 3 mil quilos de grãos por hectare, precisaríamos 1,400 milhão de hectares produzindo grãos, agrega Nacimento.

 

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