Economista adverte para o efeito de estimular o entorno da ERS-118, que anularia o impacto positivo de beneficiar o escoamento da produção

ERS-118/Divulgação

Por Milton Wells

É consenso que os investimentos em melhores infraestruturas de transporte, em todo o mundo, levaram a uma redução significativa dos tempos de viagem de pessoas e mercadorias. O caso da duplicação da ERS-118, de 21,5 km, que se inicia em Sapucaia e segue por Esteio, Cachoeirinha e Gravataí e levou duas décadas para sua conclusão, se insere nesse mesmo entendimento. Sua duplicação era reclamada de forma unânime pelas fontes de produção no que tange às dificuldades de escoamento, dada à sua ligação com a BR-116 – um dos principais eixos rodoviários do país.
Impactos negativos

Para a economista Maria Carolina Gullo, diretora de economia, finanças e estatística da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC), de Caxias do Sul, é fato consumado que as estradas são vetores de desenvolvimento assim como as ferrovias e hidrovias. Todavia, também existem impactos negativos, o que é o caso da ERS-118.

“Uma ligação com outras regiões, como da ERS-118, sem dúvida, irá estimular o comércio local e ocupação dos vazios urbanos que serão certamente valorizados com a instalação de novas fábricas”, afirma. “Todavia, este é o lado negativo que considero um dos problemas do modelo adotado no Brasil que está vinculado ao desenvolvimento. Abrimos estradas e às povoamos nas margens com o comércio e de várias outras formas. E o que acontece? Aquela estrada vai nascer morta. Vai nascer sem o seu uso principal que é o escoamento da produção. Aí será preciso instalar vários instrumentos de redução de velocidade. Vias alternativas. Haverá mortes e acidentes. É esse modelo de desenvolvimento de estradas que  acho uma má escolha para o Brasil”.

A economista lembra que nas concessões do Bloco 3 (RS-122; RS-240; RS-446; RS-453; e RS-287), do governo do estado, em que estão previstas praças de pedágio haverá também a construção de vias marginais, o que é justificado pelo fato de existir já um comércio consolidado e nesse caso a pista ajudará no escoamento.

Já no percurso de Caxias até Porto Alegre, por exemplo, ela observa que o motorista é obrigado a se deslocar a uma velocidade de 40 km, de 50 km, de 70 km e 80 km por hora.“Quer dizer: para rodar 120 km e obedecer exatamente a legislação de trânsito vou levar três horas para chegar a Porto Alegre. Esse é o modelo de desenvolvimento negativo que deveríamos rever no caso de novas estradas”, assinala. “Elas devem ser usadas para escoamento e deveria haver em seu entorno apenas uma infraestrutura de apoio, como postos de gasolina, restaurantes, de tempos em tempos”.
CAROLINAECO
Economista Maria Carolina Gullo

Freeway
Maria Carolina sugere que o estado deveria ter mais estradas no modelo da Freeway e menos no da ERS-122. Porque aí a estrada cumpriria seu objetivo, ou seja, ser utilizada para escoamento.

“Que haja escoamento da produção, fluxo de passageiros, mobilidade de pessoas,  é o lado bom das estradas. O lado negativo é manter relação com o seu entorno em que  transformamos esse modal”.

Outro exemplo positivo, segundo a economista, é a BR-448 que não tem entorno ocupado por aglomerações. “Trata-se de um elo de logística que traz crescimento econômico. Quem faz esse trajeto ganha um tempo absurdo porque pode andar a 100 km por hora sem engarrafamento. Ganha em logística e em produtividade”, afirma. “Precisamos também de mais estradas como a BR-448”.

Rota do Sol
A uma pergunta sobre os benefícios para a Serra  da Rota do Sol, de 12,4 quilômetros de asfalto que ligam os entroncamentos da BR 101 e da Estrada do Mar (RS 389), inaugurada em 2005, Maria Carolina relatou  que cidades como  Itaqui e Aratiba se beneficiaram da rodovia que levou muitas décadas para ser construída. “Todavia, ela nasceu pequena com problemas sérios de mobilidade e de vazão de fluxo”, observa. “Quando foi concebida, nos anos de 1950, ela tinha uma realidade e quando a obra terminou o fluxo era completamente diferente. Com a implantação do porto de Arroio do Sal e o do aeroporto de Vila Oliva, a rodovia ficará condenada a uma necessidade urgente de ampliação, mas ampliar para onde já que existem fábricas, comércio forte e outros investimentos em seu entorno. São 700 mil toneladas de aço por ano que circulam por ali para abastecer a indústria metal mecânica, em pista simples, a 80 km por hora”.

 

 

 

 

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