Energia eólica no Brasil segue de vento em popa

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Por Elbia Gannoum. Exclusivo para MODAL

Um dos principais destaques desta década que se encerra é o fato de a energia eólica hoje ocupar o segundo lugar na matriz elétrica do Brasil, com cerca de 9%. Esta foi uma conquista deste ano de 2019 inclusive: chegamos a 15 GW, ocupando o segundo lugar da matriz. É certamente uma trajetória virtuosa de crescimento sustentável no Brasil, compatível com o desenvolvimento de uma indústria que foi criada praticamente do zero no país, o que foi o grande desafio deste período. Há dez anos, tínhamos pouco mais de 0,6 GW instalados e estamos chegando neste segundo semestre de 2019 com 15,1 GW de capacidade instalada em mais 600 parques e com 7.500 aerogeradores em operação. De 2010 a 2018, o investimento no setor foi de US$ 31,2 bilhões, segundo dados da Bloomberg New Energy Finance. Uma medida importante desta última década também é o fato de que, em 2012, estávamos no 15º lugar no Ranking de Capacidade Instalada do Global Wind Energy Council. Ocupamos hoje a 8ª posição no ranking.

Outro dado importante desta última década é que estamos completando, neste dezembro de 2019, dez anos do primeiro leilão para contratação exclusiva da fonte eólica, realizado em 14 de dezembro de 2009. O Leilão de Energia de Reserva (LER nº. 03/2009) contratou 71 empreendimentos com uma capacidade somada de 1.805,7 megawatts (MW), ao preço médio de R$ 257,23 por MWh (atualizado para valores de hoje pelo IPCA). Na ocasião, um dado já demonstrava nossa potencialidade, porque estavam habilitados 10 GW de projetos, em 339 empreendimentos. O LER 2009 garantiu o investimento de R$ 9,4 bilhões na construção das usinas de geração de energia eólica, segundo cálculos do Ministério de Minas e Energia. De lá para cá, muita coisa mudou. Fomos aprendendo, na prática, que o Brasil tem um dos melhores ventos do mundo para a energia eólica e nossa produtividade é um fator muito importante na grande competitividade do preço da eólica no Brasil. De 2009 para cá, o preço da eólica apresentou queda, sendo hoje negociado a pouco menos de R$ 100 o MWh.

Outro ponto de destaque de mudança é a estimativa do nosso potencial. É extraordinário lembrar que em 2009 achávamos que nosso potencial era de 145 GW e que hoje estimamos em cerca de 800 GW. O que mudou? Bom, como disse, nós aprendemos que nossos ventos são excepcionais e, aqui, os aerogeradores “rendem” mais. Além disso, as estimativas do atlas foram ficando mais detalhadas e, um fato muito importante: a evolução dos aerogeradores, ficando cada vez mais altos e potentes, permite que se aproveite ainda mais o nosso potencial que já é muito acima da média. Se a média mundial lida com um fator de capacidade na casa dos 25%, nós, aqui no Brasil, vemos fatores médios anuais passando dos 40%, sendo que em meses de “safra dos ventos” registramos fatores que passam dos 70%.

Até 2023 teremos, pelo menos, 21 GW de capacidade instalada. Digo “pelo menos” porque este valor contém apenas as quantidades dos leilões já realizados no mercado regulado. O mercado livre vem crescendo muito também e impacta nestas previsões, aumentando os valores. Como disse acima, no ano passado, por exemplo, o setor fechou mais contratos no mercado livre do que no regulado, pela primeira vez. O futuro, portanto, é promissor para a fonte eólica. No PDE 2029, documento produzida pela EPE, a fonte eólica aparece com 40 GW na matriz de 2029. Considerando que temos 15,4 GW, será um crescimento bastante robusto para a próxima década.

Há também um cenário global a se considerar, com uma revolução clara e evidente acontecendo no mundo da energia: estamos nos afastando das fontes poluentes e priorizando as renováveis de baixo ou baixíssimo impacto ambiental. Em seu Relatório Anual, o Conselho Global de Energia Eólica (Global Wind Energy Council – GWEC) mostra uma indústria madura competindo com sucesso no mercado mundial, mesmo contra tecnologias tradicionais de geração de energia altamente subsidiadas em alguns países. A energia eólica é hoje uma indústria presente em mais de 90 países, 30 dos quais com mais de 1GW instalados e 9 com mais de 10 GWs, como é o caso do Brasil, que tem 15,4 GW de capacidade instalada e ocupa o 8º lugar no Ranking Mundial.  O GWEC acredita que, tanto em projetos onshore quanto offshore, a energia eólica é a chave para definir um futuro energético sustentável. O futuro, portanto, é promissor para a fonte eólica. E, no Brasil, o fato é que essa indústria segue de vento em popa. Estamos batendo recordes atrás de recordes, chegando a tender mais de 85% do Nordeste e seguimos instalando mais e mais parques.

No caso do Brasil, sabemos que o potencial eólico atual é bem maior do que a necessidade de energia do país como um todo. Isso não significa, no entanto, e é bom que se explique isso de forma clara, que o Brasil poderia ser inteiramente abastecido por energia eólica. Há que se considerar algo muito importante: a matriz de geração de eletricidade de um País deve ser diversificada entre as demais fontes de geração e a expansão da matriz tende a se dar por meio de fontes renováveis, dentre as quais está a eólica. Considerando que o Brasil ainda tem um baixo consumo de eletricidade per capita e o crescimento estimado para o País, a energia eólica ainda possui muitas décadas de desenvolvimento e ótimas perspectivas de crescimento.

Sempre que falamos de contratações e do futuro da fonte eólica no Brasil, é importante reiterar esse conceito muito importante: nossa matriz elétrica tem a admirável qualidade de ser diversificada e assim deve continuar. Cada fonte tem seus méritos e precisamos de todas, especialmente se considerarmos que a expansão da matriz deve se dar majoritariamente por fontes renováveis. Do lado da energia eólica, o que podemos dizer é que a escolha de sua contratação faz sentido do ponto de vista técnico, social, ambiental e econômico, já que tem sido a mais competitiva nos últimos leilões. Não temos como saber quanto será contratado nos próximos leilões do mercado regulado, mas o futuro certamente é promissor para a fonte eólica.

(*) Presidente executiva da ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica)

 

 

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