Ensaios de perdas em transformadores para o mercado livre de energia

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Por Giuliano Sasso

Depois do crescimento exponencial de migrações do mercado cativo para o mercado livre de energia em 2016, o ONS e a CCEE  introduziram algumas flexibilizações ao mercado. Dentre elas, a possibilidade de clientes especiais, que tinham a medição de energia do lado de baixa tensão (BT) do transformador, migrarem para o mercado livre (ACL).

Contudo, esses consumidores passaram a ter de informar as perdas técnicas intrínsecas do seu transformador de entrada à concessionária de energia local (agente conectado). De posse dessas informações, a concessionária parametrizaria o algoritmo de compensação de perdas no medidor de energia e, assim, as perdas calculadas relativas ao transformador seriam acrescentadas à conta do consumidor.

Portanto, a partir de 2017 os consumidores do grupo A (com medição em BT) que tinham interesse em migrar ao mercado livre passaram a contratar ensaios de perdas para os seus transformadores. Esses ensaios visam encontrar as perdas no ramo de magnetização e nos enrolamentos do transformador através dos ensaios a vazio e de curto circuito, respectivamente.

Vale ressaltar que todos os transformadores de energia apresentam perdas técnicas quando acontece a transformação. E como esses equipamentos são de responsabilidade do cliente, os custos gerados pelas perdas são do cliente. Seria melhor para todos os interessados que a medição passasse para o ponto certo (ponto de conexão com a distribuidora). Todavia, como em alguns casos a medição do lado de alta tensão não é possível por diversos motivos,  adota-se a medição após o transformador, ou seja, do lado de baixa tensão.

Quando o consumidor está no mercado cativo (grupo A4 com medição em BT), ou seja, ele compra energia da distribuidora local, a ANEEL permite que a concessionária acrescente uma taxa fixa de 2,5%  à fatura de energia cobrada do cliente.  Isso acontece por que o medidor está instalado do lado “errado” do transformador e as perdas dele que deveriam ser do consumidor não são contabilizadas pelo medidor. Para que a concessionária não pague por uma perda que não é sua, foi criada essa imposição de 2,5%. Por exemplo, de maneira simples e objetiva, se o resultado da medição (consumo) for de R$1.000, será cobrado desse consumidor R$1.025.

Todavia, devido as regras atuais, quando essa unidade consumidora (UC) migra para o mercado livre, esses 2,5% deixam de existir. Logo, como  as distribuidoras podem fazer para não arcarem com o prejuízo? Nesse momento é que entram os ensaios de perdas do transformador, já mencionados. O cálculo de compensação, quando utilizado o medidor ION8650C da Schneider Eletric, é a mais justa das soluções. Isso porque as equações utilizadas são mundialmente aceitas, visto que se trata de um medidor com padrões internacionais e ela refletirá, com a melhor exatidão possível de mercado, os custos sobre as perdas inerentes ao transformador.  Logo, nem a distribuidora perde receita e nem o cliente paga a mais do que deveria, pois estamos trabalhando com parâmetros adequados e específicos do transformador do consumidor. Vale ressaltar que a PROLUX é integradora EcoXpert Critical Power da Schneider há mais de 15 anos e, portanto, conhece com profundidade o medidor ION.

Olhando pelo lado do consumidor: É importante observar que a grande maioria dos transformadores comercializados para atender os consumidores do grupo A4 seguem as normas NBR5440 (2014) ou NBR5356 (2016). Portanto tem as suas perdas limitadas a algo em torno de 1,5%. Ou seja, hoje, o consumidor que comprar um transformador novo terá 1,5% de perdas inerentes e como cliente cativo, pagará a distribuidora 2,5%. Se esse consumidor tiver uma conta de R$100.000 por mês, ele terá um “prejuízo” estimado de R$12.000 por ano. Pois ele deveria pagar por perdas de 1,5% e pagará por perdas de 2,5% no mercado cativo.

Olhando pelo lado da concessionária: Para a distribuidora o problema geralmente vem dos transformadores mais antigos, com alguns anos de uso, sem manutenção e sujeitos as intempéries. Esses equipamentos podem ultrapassar com frequência os 2,5% de perdas. Na PROLUX já tivemos a oportunidade de testar transformadores dos anos 60. Ou seja, completamente fora dos padrões atuais exigidos pelas normas brasileiras. E se considerarmos que até o final deste ano a PROLUX passará de 500 ensaios realizados em transformadores desde 2018, e que 60% desses ensaios foram feitos em áreas do grupo CPFL. Vejam quanto prejuízo a CPFL já evitou aos seus cofres simplesmente adotando o uso do algoritmo de compensação de perdas do medidor ION8650C.

Para 2021 a CCEE abrirá mão do cálculo de compensação de perdas. Isso significa que eles não pedirão mais o ensaio de perdas dos transformadores e que a alíquota de 2,5% passará a ser adotada para todos os consumidores do grupo A 4 em BT (mercado cativo e mercado livre). Isso fará com que o consumidor que tiver o seu transformador dentro das NBRs pague por perdas que não são suas. E fará com que as distribuidoras arquem com perdas de transformadores ineficientes espalhados aos milhares em sua rede.

Contudo, como no Brasil as distribuidoras de energia gozam de autonomia dada pela ANEEL, acreditamos que as distribuidoras que hoje trabalham com migrações em BT, não abrirão mão dos ensaios de perdas. Pois esse ensaio será um indicador de “saúde” do transformador para a distribuidora, fazendo com que ela, após receber o ensaio com perdas acima de 2,5%, peça ao consumidor para que o transformador passe por manutenção ou que seja substituído, garantindo com que as perdas fiquem dentro do limite de 2,5%.

OBS: O objetivo desse artigo não é explanar sobre a forma complexa de como é montada a fatura de cobrança de uma distribuidora. Por isso, para passar a mensagem central, utilizamos algumas aproximações a fim de dar ao leitor dinamismo no texto.

(*) Diretor de engenharia de operações e sistemas da Prolux

+55 (51) 3392-1205; +55 (51) 99623-0678

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