Exportações e infraestrutura são dois vetores para o Brasil crescer no curto prazo, diz Roberto Giannetti da Fonseca

Crédito: Fabiano Panizi

Qual é a representatividade do Brasil no PIB mundial: 3%. E a participação no comércio global: 1%. Estamos um terço do que deveríamos. Imagine se tivéssemos importando e exportando três vezes mais do que hoje”. O cálculo é do economista Roberto Giannetti da Fonseca, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e sócio da Kaduna Consultoria. “Quanto de bem-estar poderíamos estar gerando para a população, mais renda, mais qualidade de vida, empregos. Precisamos ter a noção de que a política de comércio exterior deve ser entendida como prioritária”, diz o economista, lembrando que desde o governo FHC o país carece de uma política consistente para o comércio exterior.

Segundo ele, é um erro manter a postura de país fechado. “Com a economia global, há mais mercado lá fora do que aqui dentro”, ensina Gianetti, enaltecendo o potencial brasileiro. “Temos uma base industrial, capital humano de qualidade, mercado interno grande que dá escala de produção. Basta uma política de comércio exterior efetiva, consistente e permanente para a retomada das exportações”, enfatizou o economista durante o lançamento do prêmio Exportação RS, promovido pela ADVB.

Maior inserção internacional

Embora o comércio global esteja crescendo menos que o PIB mundial nos últimos anos – o que é raro, segundo Gianetti – o Brasil continua, mesmo assim, sendo uma economia fechada, que deve e pode se abrir, ampliando as importações e exportações sobre o PIB. “Essa relação (soma de importações mais exportações sobre o PIB) hoje é de 22 ou 23%, enquanto que a média dos países emergentes é de 40%. Nós temos que praticamente dobrar a abertura da nossa economia para poder chegar ao estágio dos emergentes”, avisou.

Mesmo o Brasil estando atrás de economias como China e Índia, e países de outros países emergentes, Giannetti se mostra moderadamente otimista em relação ao País. “A recuperação da confiança que os índices têm mostrado dão a esperança que o mercado começa a perceber que o país pode ter um governo de centro, responsável, podendo voltar a crescer a taxas de 3,5% a 4% anos seguidos”, provocou, se referindo as eleições desse ano para presidente da República.

Exportações e infraestrutura, vetores de crescimento

A premissa básica, de acordo com ele, é ter estabilidade macroeconômica: inflação sob controle e ajuste fiscal, acompanhada da elevação da taxa de investimento para dar sustentabilidade as obras de infraestrutura. “Exportações e infraestrutura são vetores que a curto prazo podem gerar emprego. Já no dia seguinte. Eles é que vão dar o ritmo de crescimento da economia”, enfatizou Giannetti, deixando como sugestão para o próximo governo a criação de uma Agenda de Competitividade.

A inquietação no mundo se concentra na posição protecionista do governo americano. “Há uma nuvem no horizonte que pode causar danos a economia mundial, uma escalada protecionista”, alertou. “Precisamos entender melhor os efeitos práticos desse protecionismo”, afirmou, antevendo um possível ambiente de retaliações de parte a parte, que favorece o aparecimento de um clima de beligerância no comércio internacional. “Vejo a China muito nervosa em relação a atitude dos Estados Unidos sobre seus produtos. As taxações de lado a lado causam perdas, é um jogo perde-perde que pode afetar inclusive o Brasil”, advertiu.

Principais pontos da Agenda de Competitividade

Produtividade do trabalho: investimento em educação, tecnologia, melhoria na qualidade do trabalhador, principalmente, a da indústria 4.0.

Custo tributário: “A estrutura é quase insana, impostos em cascata, com resíduos tributários nas exportações, e regressiva: mais concentrada no consumo do que na renda e patrimônio. A incidência teria que ser 30% sobre consumo e 70% sobre renda e patrimônio, e não o contrário, como é hoje”, recomenda.

Custo elevado da logística: Investir em ferrovias, portos, em eficiência no transporte interno. “Num país com dimensões continentais, a logística deveria ser de excelência, e não esse fracasso baseado no rodoviário, com estradas mal conservadas, portos ineficientes. Tem muito o que melhorar quando comparamos com exemplos de outros países”, propõe.

Reforma tarifária: Reduzir gradualmente as tarifas de importações ao mesmo tempo em que as exportações crescem com câmbio competitivo.

Pauta exportadora atualizada e com alto dinamismo, incluindo serviços: “Serviço é um item pouco comentado. Ele é fundamental em qualquer país desenvolvido. Temos que incluir serviços de engenharia, de arquitetura, jurídico, entretenimento, de turismo, serviços médicos. Há centenas de itens. O potencial humano é altíssimo, especialmente a capacidade criativa do brasileiro. Precisamos criar um drive de exportações de serviços que hoje representa muito pouco”, apontou.

Custo burocrático elevado: Reduzir as exigências regulatórias, como meio ambiente. “Sou totalmente a favor do meio ambiente, mas por vezes por causa de um determinado animal que vive num lago, impedir que passe uma linha ferroviária ou de energia, precisa de um pouco de pragmatismo. Somos uma potência ambiental, e isso é um bom sinal, mas precisamos não cometer exageros. Temos que ter mais equilíbrio”, ponderou.

Maior valor agregado nas exportações: “Costumo dizer que não basta produzir o bem, precisa vender melhor. Não basta ser competitivo na fábrica, precisa ser competitivo na prateleira do consumidor. É lá que se ganha dinheiro. Precisamos ter empresas mais preparadas, com marca, com embalagens, como tem feito os coreanos”, assinalou.

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