O aquecimento global e os créditos de carbono

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Valmor Alves  (*)

Desde o início da revolução industrial, o mundo usa a energia de forma incremental per capita. Além do crescimento populacional, neste período, ocorreu também um aumento significativo de energia de compostos à base de carbono.

O crescimento da população mundial graças ao avanço da ciência e, em especial, da medicina, nos últimos 100 anos – um piscar de olhos na linha do tempo da evolução humana -, é de aproximadamente cinco vezes,  hoje em torno de 7,5 bilhões de pessoas. Para dar conta de toda essa demanda de alimentos, habitações, roupas, transporte de pessoas e mercadorias, o consumo per capita  mundial ampliou-se para mais de 20 vezes nos mesmos 100 anos.

Parte significativa do consumo advém de combustíveis fósseis. Esses  combustíveis  – carvão, petróleo e gás – têm origem em jazidas no subsolo e passam por modificações químicas, liberando  energia, calor e dióxido de carbono (CO2). Esse  é o segundo gás de maior efeito estufa,  perdendo apenas para o metano. Juntos, eles formam o chamado GEE (Gases de Efeito Estufa).

Esses gases na atmosfera têm um efeito de impedir que uma parte importante e necessária da radiação que vem do sol e entra em nossa atmosfera, retorne para o espaço sideral. Assim, como o efeito de uma película de plástico, à base de hidrocarbonetos, faz em uma estufa para proteger plantas do frio.

O metano  (CH4) é o gás com maior capacidade de efeito estufa. É uma molécula bem menor e três vezes mais leve que o gás carbônico. Porém, com um efeito estufa de mais de 20 vezes por molécula. Esse é o motivo pela qual o metano de aterros sanitários, extração de petróleo, subproduto do refino, destilação e cracking do petróleo devem ser queimados quando não for possível usá-los para produzir energia, já que estocar é praticamente inviável financeiramente. Na queima do metano estaremos reduzindo em mais de 20 vezes o impacto por molécula em nossa atmosfera.

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Qualquer energia que não tenha como subproduto o CO2, mesmo a nuclear, ajuda a manter o equilíbrio de nosso clima. Por isto, a importância das fontes renováveis de energia, ou seja, daquelas  que não utilizam combustíveis fósseis.

Lembrando que sem dióxido de carbono na atmosfera, nosso planeta seria uma bola de gelo.

Reduzir de forma significativa a emissão de gases de efeito estufa é um enorme desafio na atualidade. Isso porque, além de ser uma grande dificuldade mudar nossos hábitos de consumo, também implica em reduzir o uso de combustíveis fósseis no transporte e na geração de energia,  o que vai contra os interesses financeiros de uma poderosa parcela da economia global:  a indústria do petróleo.

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O Crédito de Carbono foi um mecanismo desenvolvido para ajudar financeiramente projetos que evitam a emissão de gases de efeito estufa ou promovem sequestro de carbono da atmosfera e, portanto, ajudam a mitigar o aquecimento global.

Esse mecanismo de precificação de custo aos países emissores de GEE e créditos aos projetos de captura e produção de energia por fontes renováveis, ou seja, emissão de carbono evitada, denominado apenas Crédito de Carbono, formalizado em 1997 com a assinatura de um protocolo na cidade de Kyoto ( Japão), foi denominado  Protocolo de Kyoto.

A ratificação e validação desses créditos de carbono ocorrem atualmente na ONU na tentativa de garantir o seu bom funcionamento e evitar fraudes. O instrumento de ratificação deve ser depositado com o curador (neste caso o Secretário-Geral da ONU), o que deixa o processo burocrático e relativamente caro para os pequenos projetos.

Para as CGH’s e PCH’s , o crédito de carbono tem a ver diretamente com a produção dos Mega Watt hora (MWh) do período. É uma correlação direta.  Cada MWh produzido por fontes renováveis representa 0,30 toneladas evitadas de emissão de carbono. Ou seja, caso essa produção não ocorresse por fonte renovável parte-se do pressuposto de que seria despachada tal produção por uma termoelétrica movida a combustível fóssil, correspondente a um poder calorífico capaz de gerar 3,3 MWh para cada tonelada de carbono lançada na atmosfera.

Naturalmente, sempre que alguém tem de pôr as mãos no bolso há resistências. Assim, por falta de adesões à proposta, esse mercado acabou definhando. Logo após a assinatura do Protocolo de Kyoto até que houve um mercado com algum significado financeiro para as usinas de energia elétrica de fontes renováveis. O mercado, na época, chegou a comercializar contratos de até US$ 6,00 por tonelada de carbono. Hoje é da ordem de US$ 1,00 por tonelada, o que praticamente inviabilizou as pequenas hidrelétricas  de habilitarem-se, já que envolvem custos no processo de certificação nesta ordem de grandeza.

Existe esperança dos especialistas e países como o Brasil,  com muito potencial em energias renováveis, portanto credor, que este mercado volte a praticar valores intermediários da ordem de  US$ 3,0 a US$ 4,0  por tonelada de carbono evitada.

 

(*) Engenheiro químico – especialista em GEE e energias renováveis.

 

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