O pampa virou caatinga

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Renan e Maikon Del Ré

Maikon Del Ré Perin e Renan Martins Pizzochero (*)

Era novembro de 2015, grandes acumulados de chuva ocorriam na bacia do Paraná, Iguaçu, Tietê e Paranapanema, ultrapassando em alguns locais a marca de 350 mm de chuva no mês. No mercado de energia, preços inferiores eram projetados no submercado Sul e superiores no Nordeste em relação ao Sudeste/centro-oeste. Era o famoso descolamento para cima no Nordeste e para baixo no Sul. Isso confirmava-se para 2015 e, em 2016, o PLD médio anual para o Sul foi de R$ 92,40 e para o Nordeste de R$ 173,56, alcançando nesse ano a maior diferença desde 2010. Em 2017, ocorreu o mesmo padrão, com diferença de R$ 17,17.

Esse padrão começou a mudar apenas em 2018 e, para 2019, o padrão se manteve alcançando R$ 60,37 de diferença entre submercados e, não esquecendo de 2020, que a diferença já alcança R$ 54,34. Enfim, chega de números e vamos ao que interessa: o que aconteceu nesses últimos anos para o submercado Nordeste ter o preço de energia mais barata que o submercado Sul?

Obviamente a análise deve ser feita com diversos fatores, entre eles a carga, limites de intercâmbio, disponibilidade de geradores, restrições de reservatório e defluências (como, por exemplo, o São Francisco, que foram criadas tantas teorias que daria para fazer um longa-metragem). Porém, os fatores de destaque nesses últimos anos foram a expansão do parque eólico na região nordeste e o aquecimento das águas do Atlântico.

A geração eólica em agosto de 2015 no Nordeste foi de 2,8 GW médios vs 8,4 GW médios em agosto de 2020. Um aumento de 200% em 5 anos. Também para efeito comparativo, a carga da região nordeste em agosto de 2020 foi de 10,3 GW médios, ou seja, a geração eólica foi responsável por quase 82% da carga nesse mês. Obviamente, vale destacar a redução de carga observada em relação a prevista devido a pandemia. Para 2024, a previsão da geração é de 10,9 GW médios, e ainda acreditamos que esse valor será superior. Dessa forma, se depender somente da geração eólica, os preços do Nordeste poderão continuar surpreendendo.

Claro meus amigos, muita coisa vai mudar, sabemos que não é o primeiro ano que Machadinho tem sua geração interrompida por causa da estiagem, como também já aconteceu em 2012. No início de dezembro, a região Sul conseguiu respirar e há bons acumulados de chuva para os próximos períodos. Seria uma La Niña fake? Ou seria um trem de ondas de Rossby atuando sobre a região Sul? Nesse caso, Carl-Gustaf Rossby está influente, com ajuda do Atlântico.

Mas e o Oceano Atlântico? O que aconteceu e qual a tendência?

Estudos mostram que a temperatura da superfície do Oceano Atlântico é mais importante do que o Oceano Pacífico para as chuvas na região Nordeste. Entretanto, esses dois oceanos “guerreiam” constantemente entre si.

No início de 2020, tivemos condições meteorológicas que favoreceram mais a precipitação para a região Nordeste. O Oceano Atlântico Equatorial estava bem aquecido, a Alta Subtropical do Atlântico Sul estava intensa, favorecendo o transporte de umidade do oceano para o continente, e os ventos alísios (que ocorrem na região tropical) estavam intensos, favorecendo o posicionamento mais a sul da Zona de Convergência Intertropical e chuvas no Nordeste. São Francisco agradeceu a São Pedro?

Outro ponto a ser considerado é que, para a região Sul, o regime de chuvas está diretamente ligado aos sistemas transientes que passam pela região e, devido ao cenário das mudanças climáticas, a Oscilação Antártica tem persistido em sua fase positiva por mais tempo, dificultando o avanço de frentes frias vindas do pólo sul. Com isso, as frentes frias tem se originado mais comumente na costa do Uruguai e região Sul do Brasil. O oceano possui uma temperatura de superfície elevada nessa região, e é caracterizada pela confluência entre duas correntes oceânicas, a corrente do Brasil e a corrente das Malvinas. Nos últimos anos, essa região tem estado mais aquecida que o normal, e diversos estudos têm mostrado que essa é a tendência para os próximos anos. Assim, a atuação de sistemas transientes mais oceânicos e menos intensos serão mais recorrentes.

Outro fator importante para a chuva no centro-sul do Brasil é a Alta Subtropical do Atlântico Sul, que pode dificultar a formação de nuvens de chuva. Esses sistemas têm se mostrado cada vez mais intensos e mais deslocados para o continente durante a estação chuvosa, o que é bastante preocupante.

Números, estudos, pesquisas, são previsões do que podem acontecer nos próximos capítulos. Como disse Goethe, “só temos certezas enquanto sabemos pouco, com o conhecimento as dúvidas aumentam.” Porém, não podemos esquecer a importância da diversificação das fontes de geração, principalmente das renováveis, focando na segurança energética e na sustentabilidade do meio ambiente.

 

(*) Middle office e meteorologista da Ludfor

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