Porto de Rio Grande está 50 anos atrasado no manejo de sedimentos dragados

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Crédito: Divulgação

Nas últimas duas décadas, Lauro Calliari, professor titular da Fundação Universidade Federal do Rio Grande, acompanha com muita atenção os estudos sedimentológicos realizados na região portuária e da praia do Cassino. Para ele, nunca se efetuou um programa de pesquisa e monitoramento como o atual que está em andamento. Isso se deve, segundo ele, a participação da sociedade, mais atenta aos impactos ambientais, seja por entidades não governamentais, como a SOS Cassino, e ao próprio Ibama, que ultimamente parece ter se sensibilizado com o problema, e ainda, a gestão portuária, mais efetiva.

Em 2015 foi assinado contrato para fazer dragagem de aprofundamento e manutenção para retirada de 18,7 milhões de m³ de sedimentos, mas com a lama que apareceu no Cassino, um ano antes, e o descumprimento de 50 itens condicionantes não atendidos nas últimas gestões da superintendência do porto, o Ibama travou a renovação da Licença Ambiental e sugeriu o fatiamento da dragagem. A primeira autorização foi para 3,5 milhões de m³. Para Calliari, no entanto, ainda há risco de sedimentos se deslocarem do sítio de descarte.

O problema é saber para onde, questiona. Por isso, ressalta a necessidade de realização de experimentos no local onde estão previstas as intervenções antes da dragagem. Serão lançados traçadores da deriva de sedimentos para verificar como se comportam em condições normais e em tempestades. O problema não é só o sitio de despejo, adverte Calliari, doutor em Oceanografia Geológica pela Virginia Institute Of Marine Science (EUA). “Estamos 50 anos atrasados quanto ao manejo de sedimentos dragados em relação aos países mais desenvolvidos”, disse à Modal. Leia a integra da entrevista.

Qual a sua avaliação sobre o atual sítio de descarte de sedimentos em Rio Grande? 

O atual, de 19 m de profundidade, é muito raso para o regime ondulatório do Rio Grande do Sul. Durante tempestades os sedimentos podem ser facilmente remobilizados. De acordo com as novas instruções do Ibama, o sítio será mais profundo, algo como 21 ou 22 metros, mas ainda assim considero muito raso e próximo à área nobre do balneário.

É possível afirmar que a lama que apareceu na praia do Cassino em abril de 2014 é decorrente desse sítio?

Não, não é possível uma vez que não foram realizados estudos usando traçadores de sedimentos com diâmetro das partículas semelhante ao material dragado.

Do ponto de vista técnico, quais as razões para que os sedimentos se deslocassem até a área onde foram depositados?

Tecnicamente é possível que as ondas possam transportar sedimentos em direção a costa. Quando me refiro aos sedimentos estou me referindo a lama fluída (que é o grande problema que afeta a praia do Cassino). Por isso a necessidade de se efetuar a modelagem com ondas e considerando os sedimentos sendo lama fluída. O transporte de lama fluída por si só é um problema físico muito complicado de prever.

Desde abril de 2014 a praia do Cassino se mantém limpa, não recebeu mais lama. Isso é pelo fato de – nesse período – não ter sido realizada nenhuma outra dragagem? 

A praia melhorou efetivamente desde meados de 2017. Depois da deposição de 2014 levou cerca de dois anos e meio para a zona de surf voltar ao normal. Levantamentos efetuados com o objetivo de mapear o volume de lama fluída na costa mostra que esta diminuiu e hoje praticamente inexiste na zona de surf. Tal fato comparado com eventos anteriores sugerem que a fonte anormal de lama fluída esteja associada a dragagem.

Após o episódio de 2014, foi formado um grupo de estudo e que entre os integrantes não houve unanimidade em relação a lama que apareceu no Cassino. Qual é o seu posicionamento?

Faço parte do grupo de trabalho e acho que a não unanimidade é normal e sadia. Dessa dicotomia relativa a origem da lama, de sua discussão e de novos dados nasce o conhecimento mais detalhado. Respeito a opinião de meus colegas, mas não posso ir contra ao que indicam os dados de sedimentologia e morfodinâmica da praia obtidos até agora.

Essa lama poderia ter aproveitamento como “produto” e não como “resíduo”? Que outras alternativas poderiam ser adotadas para o destino dos resíduos decorrentes das dragagens no porto de Rio Grande? 

Os sedimentos dragados, constituídos de lama (silte+argila) e areia com proporções de 70% do primeiro e 30% do segundo, poderiam ser usados como recurso mineral para aterros hidráulicos – sedimentos não estão contaminados e sim com níveis abaixo do que os permitidos pelas resoluções dos órgãos que controlam isso. Poderiam ainda ser usados para deter a erosão que afeta grande parte da Ilha da Torotama e dos Marinheiros (dentro do estuário). Também parte da Ilha da Base, atual terrapleno de leste que vem sofrendo erosão poderia ter o seu lado leste estabilizado. Adicionalmente, o material mais lamoso poderia melhorar o entorno emerso do estuário produzindo solos mais férteis uma vez que são essencialmente arenosos. Outo enfoque seria na ampliação de pântanos salgados os chamados salt marshes que são muito importantes para o estuário uma vez que são o berçário de determinadas espécies que vivem no estuário e que sofreu degradação nas últimas décadas.

Durante a construção dos molhes de Rio Grande (final do século XIX) um engenheiro inglês sugeriu que o melhor local para instalar um porto no estado seria em Torres. As obras foram iniciadas, mas o projeto não seguiu em frente e o jeito foi construir os molhes em Rio Grande. A pergunta é: Rio Grande reúne as condições ideais

Acredito que o projeto em Torres seria inviável, uma vez que deveria ser um porto oceânico e não estuarino como de Rio Grande. Com tempestades cada vez mais frequentes e de maior intensidade (falta de abrigo em Torres), volume de água que circula na bacia de drenagem do sistema Patos-Mirim, configuração natural do canal quando inicialmente projetado, não existe local mais adequado que Rio Grande. Adicionalmente existem outros fatores logísticos, onde não transito muito bem, que são extremamente importantes, tipo, a área imensa de retroporto que existe em Rio Grande que é extremamente favorável. Outros professores poderiam responder melhor essa questão. Sei que na época de outros governos quando Rio Grande foi contrário ao governador da época existiu um projeto de ligação direta de Porto Alegre com o mar — através da lagoa do Casamento — norte da Lagoa dos Patos (cheguei a ver o pré-projeto nos arquivos do antigo Departamento Nacional de Portos e Vias Navegáveis), mas essa solução poderia causar um dano irreparável ao ecossistema lagunar. Felizmente não vingou.

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