Projeto da UTE Cambará a biomassa florestal deverá provocar novo impulso à cadeia setorial do RS

0
240

Milton Wells
Uma forma de energia limpa, renovável, de tecnologia dominada no país, além de criadora de empregos, a geração de energia de biomassa florestal no Rio Grande do Sul ainda é incipiente.
Hoje, grande parte do volume de resíduos da indústria da madeira, produzido desde o processo de colheita florestal, não tem uso específico, o que muitas vezes resulta em poluição ambiental, principalmente da água e do ar, devido ao acúmulo a céu aberto ou à autocombustão provocada por estocagem inadequada.

Implantar uma usina geradora de energia em uma determinada região com potencial de biomassa florestal, significa que esse empreendimento irá se utilizar da madeira fina dos desbastes dos reflorestamentos, que hoje é pouco aproveitada, e dos resíduos industriais das serrarias. Isso proporcionaria um significativo incremento na renda aos produtores que hoje eles não têm.

De acordo com Carlos Eduardo Miranda, diretor da  Omega Engenharia, de Porto Alegre, em fase de implantação da UTE Cambará  — que deverá reunir mais de 20 fornecedores de madeira picada —, para se habilitar aos leilões de energia do governo federal  um projeto dessa natureza é obrigado a formalizar uma série de contratos de longo prazo em que se assume o compromisso de garantir o fornecimento do combustível à usina.

Para uma usina a biomassa de açúcar e álcool essa etapa é mais fácil de ser cumprida porque, em regra, pertence ao mesmo dono da indústria que fornece a matéria-prima. “Numa usina a biomassa florestal é preciso um número muito maior de contratos, a não ser que exista um grande produtor, o que não é o caso da região serrana do RS”, assinala Miranda.

Para viabilizar essa garantia do fornecimento é preciso costurar um entendimento com toda a cadeia produtiva da madeira e com um maior número de fornecedores, o que sempre é um demorado e pode se tornar um empecilho, acrescenta.

Além disso, é preciso atender os requisitos do banco financiador que exige garantias sobre o fornecimento do combustível.  “E o risco é todo desse empreendimento. No caso da UTE Cambará, que estamos desenvolvendo no RS, procuramos minimizar essa possibilidade firmando vários contratos, com vários fornecedores”, assinala Miranda.

Ele nota que para o RS poder contar com novas usinas a biomassa a fim de aproveitar o potencial do estado, seria preciso investir na cadeia produtiva e incentivar o produtor a fazer novos plantios, assim como desbastes sistemáticos nas florestas, de modo a tornar suas florestas mais rentáveis. O desbaste é importante para permitir a entrada da luz do sol e para retirar árvores defeituosas, permitindo que as demais cresçam de forma saudável, acrescenta.

“Hoje, no RS, existem muitas florestas onde não foram feitos os desbastes adequados por não haver demanda para madeira fina que é retirada no processo. Resultado: as florestas crescem com árvores tortas ou ficam com suas árvores muito finas o que não permite gerar ao produtor o retorno adequado”.

No caso da UTE Cambará, ele aponta que ela irá garantir um fluxo de caixa aos produtores engajados no projeto por 25 anos. “Só essa usina vai injetar na região entre R$ 18 milhões a R$ 40 milhões por ano somente na compra de combustível, o que deverá representar grande alavancagem para a economia da região”, acrescenta.  “É como uma espécie de âncora de garantia para toda a cadeia”.

Ivair Damiani, superintendente executivo unidade de desenvolvimento do Banrisul, informou à MODAL que somente nos últimos doze meses o banco financiou um volume de R$ 2,8 milhões para o setor florestal do estado, a grande maior formada por pequenos produtores.

Segundo ele, são projetos pequenos que envolvem pinus, eucaliptos e acácia que são enquadrados no Programa Pronaf cujos clientes devem garantir uma renda de até R$ 420 mil, sendo que no mínimo 50% desta receita seja proveniente de atividade agrícola. Já os demais que não se enquadram no Pronaf  podem optar por outras linhas de repasse do BNDES; Pronamp ou ABC Florestas, que inclui o plantio de oliveiras e nogueiras.

“O Banrisul está atuando fortemente no agronegócio do RS e acreditamos que  a implantação da UTE Cambará a biomassa de madeira picada deverá proporcionar um grande impulso ao setor florestal, que nos último anos deu uma freada em seus investimentos devido à sobra de madeira e a preços não atrativos”, afirma Damiani.

“Não há dúvida de que ao assegurar contratos firmes de fornecimento de  matéria-prima para usinas a biomassa, o agricultor voltará a interessar-se em plantar novas florestas. Será um novo alento para o setor”, acrescenta.

Paulo Raffin do BRDE,  informou que em 2019 o banco não financiou o plantio de florestas comerciais. Entretanto, em agosto de 2018, foram feitos financiamentos de cerca de R$ 20 milhões para o plantio de florestas de acácia-negra em diversas áreas localizadas na metade sul do Rio Grande do Sul.

“Este plantio está ainda sendo realizado ao longo de 2019, de acordo com a estratégia de renovação e ampliação de florestas da empresa. Os100% da produção de madeira abastecerá planta de produção de cavacos de madeira e pellets, que serão exportados para mais de 70 países”, informa Raffin.

Ele chama a atenção para o fato de que no RS há a necessidade de licença ambiental emitida pela Fepam para o plantio de florestas comerciais, mesmo que em área de baixo porte.  Alguns estados isentam o licenciamento para plantar florestas conforme a área (em hectares) que receberá o investimento, o que facilita bastante o apoio aos pequenos empreendedores.

Sobre as alternativas para o financiamento de energia renovável, explica que as linhas variam conforme o tomador de crédito (cliente produtor rural, por exemplo, possuem juros com taxas fixas). Especificamente para fomento da cadeia no caso da biomassa de madeira (cavacos), há uma linha do Plano-Safra Brasileiro, chamada ABC (Agricultura de Baixo Carbono), que pode financiar o plantio de florestas comerciais.

O prazo do financiamento é de até 12 anos, incluindo até 8 anos de carência, ou 6 meses após o 1º corte da floresta, o que for menor. O custo é de 7% ao ano (taxa fixa).O cliente pode ser pessoa física ou jurídica, ambos produtores rurais. Podem tomar até R$ 5milhões por ano, por CPF (ou CNPJ). Também existe a alternativa, dependendo do projeto, de financiar com recursos internacionais, com custo de cerca de 5,5% a.a. — e variação cambial —, em prazo de cerca de 12 anos.

“Ou seja, existem alternativas para as mais variadas formas de empreendimentos do setor de renováveis.   O BRDE investiu na preparação de suas equipes para avaliar os projetos de forma célere e para apoiar no processo de construção do crédito com seus clientes”, destaca Raffin.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Por favor digite o seu nome aqui