Renováveis e pós-pandemia

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Elbia Gannoum, presidente da ABEEólica

Elbia Gannoum  (*)

 

Estamos vivendo um cenário de grandes incertezas, de muita complexidade, enormes desafios e ainda não sabemos, ao certo, quanto tempo deve durar. No momento, nossa prioridade como sociedade deve ser a de salvar vidas, seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde e dos órgãos de saúde competentes, enquanto milhares de cientistas em todo o mundo buscam vacina e tratamentos. Só uma vez estabelecido este ponto crucial é que é possível dedicar uma parte de nosso tempo a pensar como será o futuro na pós pandemia.

Quando pensamos no futuro, tem se tornado um mantra das últimas semanas o fato de que não voltaremos ao “normal” tão cedo e que, mesmo no pós-pandemia, o mundo que encontraremos será distinto. E a pergunta que faço é qual será o papel das energias renováveis, mais especificamente da eólica, nesse novo “normal” que vamos encontrar. Precisamos, em primeiro lugar, analisar qual deve ser a situação provável daqui a alguns meses, olhando especificamente o setor elétrico. Entendo que um dos principais pontos é que estamos vivendo uma grande queda de demanda e isso deve afetar os próximos leilões, que devem contratar muito menos energia do que estávamos prevendo quando entramos em 2020. Isso certamente diminui a velocidade de crescimento da energia eólica, mas não muda o fato de que estamos numa transição energética para renováveis. A pandemia não vai mudar isso, vai apenas imprimir uma velocidade mais lenta para este processo.

No caso específico do Brasil, ainda que tenhamos leilões com contratações menores, existe uma diretriz clara do governo, por meio do PDE 2029, de que a expansão da matriz se dará por meio de renováveis, com destaque para a eólica, fonte altamente competitiva e que também reúne uma série de efeitos multiplicadores positivos para a sociedade. Importante sempre relembrar que o Brasil tem um dos melhores ventos para produção de energia, fazendo com que nosso fator de capacidade (a medida de produtividade das máquinas) seja cerca de o dobro da média mundial, o que dá muito competividade para a fonte, impulsionada também pelo grande avanço tecnológico de máquinas que são mais eficientes a cada novo modelo.

Além do fato de as renováveis serem a escolha óbvia para a energia do futuro e para a luta contra o aquecimento global, elas possuem atributos de impactos positivos sociais e econômicos que serão fundamentais para um futuro pós-pandemia em que estaremos com economias passando por grandes dificuldades, com altas taxas de desemprego e desafios ainda maiores de desigualdade social. O GWEC (Global Wind Energy Council), por exemplo, lançou o documento “Energia eólica: um pilar para a recuperação da economia global – Reconstruindo melhor para o futuro”. No manifesto, o Conselho apresenta argumentos sobre o poder de investimento da eólica, com criação de empregos e efeitos positivos para as comunidades e para o desenvolvimento tecnológico. Além disso, o GWEC apresenta ações que podem ser tomadas pelos governos para garantir que, no day after dessa pandemia, os esforços para reconstrução e retomada da economia possam acontecer de forma a contribuir para termos uma sociedade mais justa e sustentável.

Não tenho nenhuma dúvida de que encontraremos um mundo diferente após essa pandemia e no setor elétrico isso também será assim. Precisaremos enfrentar, no curto prazo, por exemplo, os desafios da baixa demanda, mas avalio que isso é passageiro e voltaremos a crescer. Há toda uma necessidade de eletrificação da economia que vai demandar uma produção maior de eletricidade, por exemplo. O que espero é que tenhamos, no processo dessa pandemia, amadurecido como sociedade para poder enfrentar outra ameaça concreta, que é o aquecimento global. Precisaremos das energias renováveis mais do que nunca. Utilizando uma frase do documento do GWEC, acredito que a importância da eólica será colaborar para que possamos “reconstruir melhor para o futuro”.

(*) Presidente da ABEEólica.

 

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