Caminhões acima do peso ameaçam a segurança de pontes no estado

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Engenheiro Augusto Tozzi/Divulgação

“A maioria das obras de artes especiais – pontes, viadutos e passarelas – existentes no estado têm, em média, mais de 30 anos, mais de 50% tem 50 anos ou mais. Em poucas, ou em raras, foram executados serviços de reforço ou alguma manutenção e quando isso ocorreu foi porque houve alguma degradação muito grave. Hoje existem várias com problemas sérios. Não entendo como a Sociedade de Engenharia, Sindicato dos Engenheiros e o CREA-RS, não tomam atitude junto ao Ministério Público para corrigir isto. Não cabe legislação sobre isto, as normas técnicas estão em vigor, o que é preciso é adequar antes a estrutura das obras para depois liberar o trânsito de veículos com a carga majorada. Isto é tão lógico que chega a ser ridículo.  Espero que acordem e se comece a encarar o problema como ele merece, antes que prolifere o rompimento e desabamento de obras.”

Essa declaração é do engenheiro Augusto Tozzi, da Tozzi Engenheiros e Consultores Associados, de Porto Alegre, que atua há mais de 40 anos no setor de pontes e viadutos, tendo realizado cerca de 200 projetos de pontes e viadutos e mais de 200 igualmente de restaurações. A seguir, leia os principais trechos de sua entrevista à MODAL ON LINE:

Existe cadastramento sobre as pontes e viadutos do RS, em nível federal e estadual?  Qual foi o último cadastramento?

O cadastramento foi feito há muito tempo e está muito defasado. O DNIT, em várias oportunidades, tentou fazer atualizações, mas nunca chegou a se efetivar. Em nível estadual, do Daer, no momento está em implantação um programa de inspeção e cadastramento. Inclusive, com licitação em andamento.

 

Qual a vida útil de cada ponte? Discriminar por tipo de estrutura.

  A vida útil de uma ponte pode ser incalculável, vai depender muito do regime de tráfego ao qual está submetida, alteração do regime hidrológico do curso d’água e a manutenção preventiva a que foi submetida. As pontes em madeira são as menos duráveis e que requerem manutenção constante. Existem pontes com mais de 100 anos em bom estado. As pontes em concreto armado, concreto protendido e em aço, se não sofrerem carregamentos significativamente maiores que o previsto no seu dimensionamento, só sofrerão desgastes pelo intemperismo, oxidações, desagregação de concreto, rompimento de juntas, solapamento causado por cheias descomunais.

Existe alguma política pública de para a conservação dessas obras de arte?

Lamentavelmente política pública efetiva não. Houve várias tentativas de programas, mas nenhum vingou.

Em sua opinião, quais as pontes que carecem de investimentos urgentes no RS?

Hoje existem várias com problemas sérios. Existem algumas que foram inspecionadas há vários anos, remetidos relatórios por parte dos engenheiros residentes tanto do Dnit quanto do Daer, mas nada aconteceu. Muitos relatórios foram feitos, repetidos e arquivados ou abandonados em gavetas ou prateleiras.

Quais as medidas que estão sendo adotadas para atualizar essas obras de arte? Qual a sua sugestão?

O Dnit promoveu uma audiência pública, no 1º semestre do ano passado, onde propôs um programa de vistoria, cadastro para reabilitação de obras de arte  Proarte, até hoje nenhuma obra foi contratada. Venho defendendo há anos que se faça um contrato piloto usando-se um trecho de uma rodovia importante de escoamento de safra, com o objetivo de balizar o programa de reabilitação.

Em termos de legislação, o que deve ser modernizado?

Não se pode “decretar” que algo que foi calculado para suportar uma determinada carga tenha que suportar carga maior sem ter sido reforçado. Não entendo como a Sociedade de Engenharia, Sindicato dos Engenheiros e o CREA, não tomam atitude junto ao Ministério Público para corrigir isto. Não cabe legislação sobre isto, as normas técnicas estão em vigor, o que é preciso é adequar antes a estrutura das obras para depois liberar o trânsito de veículos com a carga majorada. Isto é tão lógico que chega a ser ridículo.  Espero que acordem e se comece a encarar o problema como ele merece, antes que prolifere o rompimento e desabamento de obras.

Até que ponto a instalação de balanças nas rodovias poderá atenuar esse quadro?

As balanças fazem o controle do carregamento dos veículos que transitam na rodovia. Veículos com excesso de carga danificam o pavimento e a estrutura das pontes e viadutos, pois tanto o pavimento quanto as obras de arte especiais foram dimensionadas observando-se as normas técnicas vigentes no país. A maioria das pontes existentes foi dimensionada para veículo de até 36 toneladas e hoje 45 toneladas, mas esse veículo não transita só sobre as novas obras, e as anteriores não foram reforçadas para atender este novo veículo. Soma-se a isto que o governo autorizou o trânsito de bi-trens e treminhões que estão transitando muitas vezes com mais de 70 toneladas, obviamente que as estruturas estão sendo danificadas e vão acabar em estado de ruína. As balanças se existissem e estivessem operando coibiriam o transito de veículos com excesso de carga por eixo, isto diminuiria o desgaste e deformação do pavimento das rodovias e minimizaria o impacto sobre as pontes.

 

 

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