O Raul Randon que eu conheci

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Crédito: Divulgação

Guilherme Arruda

No começo dos anos 1990, como correspondente do jornal Gazeta Mercantil, troquei Porto Alegre por Caxias do Sul, tendo toda região da serra gaúcha para fazer a cobertura. No inverno de 1991, durante entrevista com o então diretor industrial da Randon, Erino Tonon, a porta da sala se abre e entra um sujeito imenso, com quase 1,90m de altura. De forma cortês ele me cumprimenta e senta ao meu lado, permanecendo em silêncio durante todo o tempo, até se levantar e se despedir.

Foi assim que tive o primeiro contato com Raul Anselmo Randon, morto sábado último (3), aos 88 anos de idade, responsável por erguer um complexo industrial de cerca de R$ 4 bilhões de faturamento. O falecimento ocorre um ano antes do grupo criado por ele e pelo irmão Hercílio, o Nino, completar 70 anos.

Encontro: repórter e o empresário, em Caxias do Sul
Encontro: repórter e o empresário, em Caxias do Sul

Viagem com o carro do chefe

Há várias formas de definir Raul Randon: empreendedor, visionário, líder empresarial, mobilizador, aglutinador, carismático, colono, mas acima de tudo, reconhecido pela sua simplicidade, alguém com habilidade para lidar com as pessoas, tendo o poder de deixar à vontade todo mundo ao seu redor.

Sempre fez questão de remunerar bem seus empregados, desde os tempos da modesta Mecânica Randon, nascida em 1949, no bairro de Santa Catarina, em Caxias do Sul. Em 1966, Neator Paim, empregado de confiança, havia acumulado diversos períodos de férias e decidiu encaminhar o pedido. Foi atendido, mas dois dias antes do início das férias, Raul o surpreende: “Vou pedir que você suspenda as férias. Depois te compenso”. Paim ficou paralisado, mas entendeu a situação. O tempo passou até que um dia Raul ficou sabendo que Paim iria casar. Mandou chamá-lo: “Pega meu carro e vá fazer uma viagem”, disse, entregando as chaves do seu Aero Willys grafite.

Ousadia nos anos 70

Ainda na década de 1960, a então Mecânica Randon montava aproximadamente mil reboques e semirreboques por ano. Raul passou quarenta dias na Europa visitando as feiras de Milão e Hannover e no retorno estava convencido de que era preciso construir um parque industrial com capacidade para fazer mil unidades mensais. Quatro anos depois nascia o complexo no bairro Interlagos, em Caxias do Sul. Detalhe: esta viagem era para ter sido feita por Hercílio (1925-1989), que desistiu na última hora.

Por vezes, era tido como um midas, pois tudo o que tocava se transformava em ouro. As pessoas se aproximavam oferecendo algum tipo de negócio na intenção de contar com o seu apoio. Menos de dez anos atrás, foi-lhe oferecido a proposta de produzir água mineral. Raul achou a ideia boa, mas desarmou o proponente com uma pergunta. “Produzir água é fácil. Você sabe quem fará a distribuição”, perguntou. O negócio não vingou.

Um convite surpreendente

Tivemos centenas de encontros ao longo de quase 30 anos. No tempo que trabalhei na Gazeta Mercantil, decidi gravar entrevistas com diversos empresários da região, com o propósito de reunir material para a produção de um livro, que mostrasse como funciona a mente do empreendedor dessa região. No oitavo encontro com Raul, ele me disse: “Você conhece a minha mais do que eu. Não quer escrever minha biografia? Respondi na hora que sim. O livro não foi editado, mas parte das entrevistas usei para escrever A Santa Inveja – Histórias reais de sucesso, fracassos, alianças, intrigas e traições na serra gaúcha.

A forma da simplicidade

Em outra ocasião, lembro que, encerrada a apresentação dos resultados do balanço de 2011, os visitantes foram orientados a caminhar pela área interna da Randon até o restaurante do Lago, distante poucos metros do prédio onde, minutos antes, jornalistas e convidados acompanharam a coletiva de imprensa. À medida que chegavam ao local, eram recepcionados com taças de vinho e pedaços de queijo tipo Grana Padano. O rótulo dos vinhos estampava as iniciais RAR, de Raul Anselmo Randon.

Ele sentia-se à vontade, dando atenção as diversas rodas de conversa. Numa delas, eu vi um senhor de cabelos grisalhos elogiando um Merlot safra 2009, produzido por Raul. Ao ver o anfitrião se aproximar, o senhor disse: “Seu vinho é uma maravilha, mas por que precisa ser tão caro?” Talvez fosse o momento propício para enumerar as qualidades do vinho, realçar a sutileza dos taninos, as notas de frutas vermelhas, mas Raul preferiu usar a habitual simplicidade e respondeu: “Porque é bom”.

Parem os aviões!

Vinho e queijo são dois exemplos que exibem a sua capacidade empreendedora. Em um dos nossos inúmeros encontros, ele me confidenciou que quase pensou em desistir dos queijos, pois montou o projeto baseado na aplicação de US$ 2 milhões e quando se deu conta havia investido US$ 5 milhões. Mas não se arrependeu. Esses negócios paralelos renderam situações curiosas, como o episódio insólito, de 1998, quando paralisou por algumas horas o aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para permitir o desembarque de um plantel de cem vacas vindas dos Estados Unidos, selecionadas para fornecer o leite base para a produção do queijo Grana Padano.

Foi um líder dentro e fora do complexo industrial. Com sua influência, mobilizou o setor empresarial da cidade em prol da construção de um hospital moderno em Caxias, nos anos 80, quando a cidade tinha carência para atendimentos complexos. O projeto não foi para a frente devido ao surgimento de investimentos nesta área. Foi dele também a ideia de sensibilizar seus pares no sentido de apoiar financeiramente as autoridades de segurança pública na criação do Movimento de Combate à Violência (Mocovi).

Fé no Brasil

O que mais chamava minha atenção nos nossos encontros era a sua inabalável confiança no Brasil. Dizia sempre que, mesmo nos momentos ruins, o país não deixaria de produzir grãos, tomates, carnes e que isso precisaria de veículos para fazer o transporte. Ele mantinha esta postura na última vez em que nos vimos, em Caxias, durante um evento na Randon, alguns anos atrás. Infelizmente, perdemos contato após meu retorno para Porto Alegre, em 2015.

Fica a admiração e a certeza de que, lideranças como a de Raul, farão falta. Vamos torcer para que novas portas se abram.

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