Da Redação Revista Modal
A determinação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) que exige das novas concessionárias de rodovias um plano de ação emergencial nos primeiros 100 dias de contrato transformou significativamente a dinâmica de entrada em operação do setor no Brasil. O modelo impõe uma corrida contra o tempo para recuperar a trafegabilidade de centenas de quilômetros de malha degradada, exigindo respostas rápidas, mobilização massiva e uso intensivo de tecnologia.
Segundo o engenheiro Fernando Pugliero, presidente da Pavesys Engenharia, o principal gargalo inicial dessa exigência regulatória reside na mobilização simultânea de recursos em larga escala. Em um intervalo extremamente restrito, as concessionárias precisam contratar empreiteiras, mobilizar maquinário pesado, garantir o suprimento de insumos básicos como asfalto e brita e obter licenças ambientais operacionais, tudo isso mantendo o mapeamento contínuo dos trechos críticos sem interromper o fluxo diário de veículos.
Riscos inflacionários
Essa concentração massiva de demanda em janelas temporais curtas gera impactos diretos na cadeia de suprimentos e traz riscos inflacionários para o setor. Insumos fundamentais, como o ligante asfáltico (CAP) e agregados específicos, enfrentam gargalos de oferta e aumento nos custos de frete. Da mesma forma, equipamentos especializados de grande porte, como fresadoras e usinas móveis, além de mão de obra qualificada, apresentam disponibilidade limitada no mercado nacional.
De acordo com Pugliero, essa corrida por recursos tende a inflacionar os custos operacionais das empreiteiras, o que obriga as concessionárias a adotarem estratégias de compras antecipadas e contratos de longo prazo com fornecedores estratégicos.
Durabilidade das intervenções de emergência
Outro ponto central do debate técnico nos 100 dias diz respeito à durabilidade das intervenções de emergência. A execução de obras superficiais — como a fresagem e a recomposição exclusiva da capa asfáltica — sobre bases ou sub-bases estruturalmente comprometidas atua apenas de forma paliativa. Sem a correção de falhas profundas ou a recuperação da capacidade de suporte das camadas inferiores, os defeitos voltam a se refletir na superfície em pouco tempo.
Pugliero pondera que, embora essas intervenções cumpram o papel indispensável de restabelecer a segurança e a trafegabilidade nos primeiros meses, elas precisam ser posteriormente reforçadas ou refeitas ao longo do cronograma de obras definitivas para alcançar a vida útil exigida nos contratos de concessão.
Para evitar que essas ações emergenciais representem desperdício financeiro, a engenharia de pavimentos passou a integrar as intervenções rápidas ao projeto executivo futuro. Através do cadastro técnico georreferenciado, o histórico exato de cada aplicação — incluindo espessuras e materiais — é registrado na modelagem da rodovia.
Dessa forma, a camada de recomposição aplicada nos primeiros 100 dias pode ser aproveitada na fase de obras definitivas, atuando como rolamento provisório ou sub-base para o reforço final. O ganho estrutural efetivo é aferido por ensaios não destrutivos, como o Falling Weight Deflectometer (FWD), aplicados antes e depois dos trabalhos.
Decisões em tempo recorde
A viabilidade técnica de tomar decisões em tempo recorde sustenta-se na automação da coleta de dados. Em substituição às tradicionais e lentas inspeções visuais, a engenharia diagnóstica moderna utiliza veículos equipados com perfilômetros laser para medição de rugosidade e afundamento, câmeras 3D (Laser Crack Measurement System – LCMS) e georradares (GPR). Esses dados coletados são processados instantaneamente pelo Sistema de Gerência de Pavimentos (SGP), que cruza a severidade das patologias com o volume de tráfego, gerando mapas de criticidade que direcionam as frentes de obras diretamente aos pontos prioritários desde as primeiras semanas.
Essa evolução transformou também a forma como o mercado contrata serviços de engenharia e consultoria. Segundo Pugliero, a exigência da ANTT impulsionou a adoção de contratos de pronta resposta, nos quais as empresas diagnósticas são mobilizadas antes mesmo da imissão na posse para realizar levantamentos no “Dia Zero”. A entrega de relatórios estáticos deu lugar ao fornecimento de bancos de dados dinâmicos prontos para integração no SGP da concessionária, exigindo equipes multidisciplinares altamente capacitadas em análise de dados, automação e geoprocessamento, acrescenta.


