O fim melancólico da Guerra Implementos Rodoviários, de Caxias do Sul

Crédito: Divulgação

Ângelo Guerra e Raul Randon começaram na vida fazendo implementos rodoviários na mesma cidade, Caxias do Sul e no mesmo bairro. Ambos tiveram altos e baixos e, por mais sombrio que possa parecer, foram vítimas, em momentos distintos, de incêndios que acabaram destruindo as instalações de suas empresas. As semelhanças terminam aí. A morte prematura de Ângelo (16 anos mais velho que Raul) antecipou a chegada da segunda geração ao comando da Guerra. Na Randon, os filhos de Raul assumiriam o controle executivo do grupo três décadas após o falecimento do fundador da Guerra (ocorrida nos anos 1980) e isso fez toda a diferença.

A falência da Guerra Implementos Rodoviários, decretada no último dia 8, é a soma de equívocos e de má gestão de uma empresa que durante décadas foi líder absoluta da segunda posição no ranking de fabricantes desse segmento. Desde 2008, a empresa era controlada pelo fundo francês de private equity Axxon Group, que fez a leitura imprecisa do negócio, não considerou a cultura interna e foi tolerante ao permitir desmanche sem precedentes, desrespeitando regras básicas nos processos de fusões e aquisições.

Sete meses sem produção

Sem produzir um equipamento sequer há sete meses, com salários de 800 empregados atrasados nesse período, dívidas na ordem de R$ 240 milhões e o encaminhamento de parecer do Ministério Público reprovando plano de recuperação judicial, autorizado em 2015, não restou alternativa senão o pedido de falência. “Havia briga pelo poder”, disse à revista Modal, o conselheiro do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias do Sul, Oli Soares Saldanha, que trabalhou 21 anos na Guerra. “Foi má gestão da Axxon”, complementa.

Decisões equivocadas

A família Guerra teria recebido quantia abaixo do que pretendia pela venda da empresa. As informações sobre valores são imprecisas. O mercado avalia que a transferência tenha girado ao redor de R$ 300 milhões. Um dos herdeiros, Marcos Guerra, retornou à empresa, a convite dos controladores. Em 2010, ao ser questionado sobre como gostaria de ver Guerra num horizonte de cinco anos, ele respondeu: “Uma empresa sólida, que trocou de controle e que seja perpetuada, criando estruturas modernas. Acredito que a Guerra terá vida longa”.

A Axxon equivocou-se na escolha dos executivos de alto nível. Foram três trocas num prazo de quatro anos, cada qual com uma visão personalista de atacar os problemas. O resultado de decisões danosas tornava cada vez mais distante o desinvestimento –  quando um fundo de private equity se desfaz do controle, prática que costuma acontecer a partir do sétimo ano. Em 2015, um mês antes de completar 45 anos, entrou no programa de recuperação judicial.

Em tempo algum, a Guerra conseguiu diminuir a distância que a separava da Randon.

 

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