Por Fernando Pugliero (*)
A engenharia foi criada no Brasil há cerca de 200 anos. Começou com a engenharia militar e, posteriormente, com a engenharia civil. No início, havia uma formação bem abrangente. Com o passar do tempo, ela foi se segmentando: surgiu a engenharia mecânica, a elétrica, e hoje contamos com mais de 40 ramos distintos — como engenharia de produção, de computação e ambiental —, fragmentando-se em todas as áreas.
No entanto, nos últimos 20 anos houve a consolidação do chamado mundo digital. Com a digitalização, as especificidades voltaram a se aproximar com o uso de grandes bancos de dados e plataformas que coordenam a engenharia. Isso resgatou a necessidade daquele profissional criado lá atrás, antigamente, que concebia pontes, barragens e fazia de tudo, algo que durante um período havia deixado de existir com a alta segmentação.
O cenário contemporâneo é dominado por grandes bancos de dados e plataformas integradas. Com esse avanço, podemos perguntar: será que não vamos precisar mais de engenheiros generalistas do que de especialistas em determinadas áreas?
Isso não significa que os especialistas perderão valor ou que deixarão de existir. Eles vão continuar a ter valor, mas serão cada vez menos requisitados para o dia a dia, porque o momento atual já não demanda tanto a hiper-especialização isolada. A própria Inteligência Artificial pode atuar e suprir essa lacuna nesse aspecto. O especialista é aquele que cuida de uma área muito específica na engenharia — como um detalhe restrito na construção de uma ponte. Esse tipo de profissional tende a ser cada vez menos demandado, pois as exigências na engenharia tornam-se cada vez mais genéricas e sistêmicas.
O engenheiro generalista contemporâneo torna-se o maestro capaz de traduzir os outputs de plataformas digitais avançadas e grandes volumes de dados em diretrizes práticas de engenharia e gestão.
Diante desse cenário de transformação, a grande dúvida que fica é a seguinte: essa superficialidade proporcionada por esse contexto mais genérico não vai comprometer a qualidade da engenharia no futuro?
O temor é perfeitamente compreensível, dado que ninguém mais parecerá estudar as operações e as bases teóricas de forma tão aprofundada como antes. Se priorizarmos apenas a leitura rápida de painéis e dados gerados por softwares em detrimento do estudo rigoroso dos fundamentos, corremos riscos reais.
A resposta para este impasse exigirá um equilíbrio cauteloso das lideranças e das instituições de ensino. O engenheiro do futuro precisará transitar com facilidade pela visão sistêmica sem abrir mão do rigor técnico indispensável, garantindo que a inovação digital caminhe sempre lado a lado com a solidez e a segurança estrutural.
A engenharia dá um ciclo completo em sua trajetória secular. Deixou de ser ampla para se fragmentar na especialização extrema e, agora, reencontra na digitalização e nos dados a urgência da visão sistêmica. O desafio atual é abraçar essa nova competência multidisciplinar preservando a excelência que sustenta a nossa profissão.
(*) Diretor-presidente da Pavesys Engenharia


