Descarbonização e inovação na infraestrutura

Joelson Sampaio

Num cenário global cada vez mais pressionado pelos efeitos das mudanças climáticas, a transição para uma economia de baixo carbono tornou-se prioridade na agenda dos projetos de infraestrutura. A descarbonização, entendida como o processo de redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases de efeito estufa, também tem ocupado a agenda do campo da infraestrutura.

Integrar a descarbonização aos projetos de infraestrutura não é apenas uma necessidade ambiental, mas também uma oportunidade para impulsionar a inovação tecnológica e fomentar projetos mais robustos.

Como os projetos de infraestrutura são intensivos em capital e possuem longo ciclo de vida, suas decisões de planejamento e investimento moldam o padrão de emissões por décadas. Dessa forma, a maneira como concebemos, construímos e operamos rodovias, sistemas de energia, transportes urbanos e edificações influenciará diretamente a capacidade de atingir metas climáticas globais, como as estabelecidas pelo Acordo de Paris e pela Agenda 2030 das Nações Unidas.

Diversas iniciativas vêm impulsionando a descarbonização das infraestruturas. Entre elas, destacam-se os títulos verdes ( green bonds), as rodovias com cobrança automática ( free flow), a expansão das ferrovias sustentáveis e os avanços no setor de saneamento.

Os green bonds são instrumentos financeiros destinados a captar recursos para projetos com benefícios ambientais, como energia renovável e mobilidade de baixo carbono. Estudos recentes têm demonstrado que os green bonds desempenham papel importante na promoção da sustentabilidade e na redução das emissões de carbono associadas aos projetos de infraestrutura. Alamgir e Cheng, em artigo publicado em 2023 na revista Sustainability, argumentam que esses instrumentos financeiros têm se mostrado eficazes para financiar projetos em energia renovável, contribuindo para uma transição estrutural em direção a uma economia de baixo carbono.

A adoção de sistemas de pedágio eletrônico sem cancelas representa outro avanço nessa direção. Ao substituir barreiras físicas por cobrança automatizada e proporcional à distância percorrida, reduz-se o congestionamento, o consumo de combustível e, consequentemente, as emissões de CO2.

Em artigo publicado em 2020 na Environmental Science & Technology, Li e coautores analisaram o impacto da implementação do sistema Electronic Toll Collection (ETC) em rodovias e constataram uma redução significativa na concentração de emissões nas áreas adjacentes às praças de pedágio. A eliminação da necessidade de parada dos veículos e a consequente fluidez do tráfego resultaram em menor consumo de combustível e em redução direta das emissões de gases poluentes, incluindo o CO2. Os autores destacam que, além dos ganhos ambientais, o ETC melhora a eficiência operacional das rodovias e contribui para a mitigação dos impactos da mobilidade sobre a qualidade do ar.

O fortalecimento da malha ferroviária constitui uma estratégia bastante eficaz para reduzir as emissões no transporte de cargas e passageiros. O modal ferroviário apresenta uma eficiência energética superior à do transporte rodoviário, especialmente quando alimentado por fontes renováveis.

Abdurahman e coautores publicaram em 2021 na Railway Engineering Science artigo em que analisam estratégias de eletrificação, nas quais apenas parte da rota é eletrificada. Os resultados indicam que a eletrificação de 50% de uma rota pode reduzir em até 54% as emissões operacionais de CO2, com ganhos mais expressivos nos trechos de aceleração, como nas saídas de estações. Esses achados reforçam o potencial da eletrificação como uma solução para aumentar a eficiência energética e reduzir as emissões do setor de transportes.

A experiência brasileira com concessões no setor de saneamento também oferece evidências empíricas sobre como modelos de gestão privada podem impulsionar a sustentabilidade e a inovação na infraestrutura. Em pesquisa desenvolvida por mim, Arthur Dassan, Vinicius Brunassi e Rodrigo De-Losso, demonstramos, com base num desenho quase experimental, que municípios que transferiram a operação dos serviços de água e esgoto para concessionárias privadas registraram ganhos econômicos e ambientais. Verificou-se melhora na coleta e no tratamento de esgoto, indicando avanços em termos de eficiência e benefícios ambientais.

A descarbonização dos projetos de infraestrutura representa, portanto, mais do que uma exigência ambiental: trata-se de um novo paradigma de desenvolvimento. À medida que governos, investidores e empresas incorporam critérios de sustentabilidade em seus processos de planejamento e execução, abrem-se caminhos para um crescimento econômico mais inovador e resiliente. O desafio da descarbonização deve ser encarado como uma oportunidade de redefinir o papel da infraestrutura, que deixa de ser uma fonte emissora para assumir o protagonismo na transição verde.

Professor na Escola de Economia de São Paulo da  FGV

O Estado de S. Paulo.

 

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