A precariedade da infraestrutura logística do Rio Grande do Sul tem se mostrado um grande obstáculo para o desenvolvimento econômico do estado, especialmente na região central. Em entrevista à revista Modal, o vice-presidente da Fiergs e coordenador da Região Central, Júlio Kirchhof, destacou os principais gargalos que impedem a região de atingir seu potencial máximo, revelando um cenário de rodovias em mau estado, falta de capacidade de armazenagem e um sistema ferroviário e hidroviário subutilizado.
A localização estratégica de Santa Maria, a no máximo 300 km de qualquer ponto do estado, poderia ser uma vantagem competitiva, mas é neutralizada pela má condição das rodovias. Segundo Cardoso, a RST-287, que liga Santa Maria à capital, é um exemplo crítico, com uma ponte provisória e vários desvios que podem aumentar o tempo de viagem em mais de uma hora.
O problema se repete em outras rotas vitais para a economia agrícola. Na direção sul, rumo a Uruguaiana, um desvio no rio Toropi é frequentemente interrompido por chuvas, inviabilizando o trânsito de veículos pesados. Na rota para Cruz Alta e Santo Ângelo, que concentra um grande fluxo de caminhões com grãos para o porto de Rio Grande, os motoristas enfrentam rodovias repletas de buracos.
A deficiência da infraestrutura não se limita às estradas. A capacidade de armazenagem de grãos é outro desafio. Embora produtores capitalizados consigam guardar suas safras, aqueles afetados por secas e enchentes dependem de cooperativas, que não têm espaço suficiente em anos de safra normal.
O transporte por ferrovias e hidrovias, que poderia aliviar o tráfego rodoviário e reduzir custos, é praticamente inexistente na região central. Cardoso explicou que a malha ferroviária gaúcha, já precária, está restrita ao trecho entre Cruz Alta e Rio Grande após as chuvas de maio de 2024. Já o porto fluvial de Cachoeira do Sul está inoperante por causa do assoreamento do rio Jacuí e da falta de manutenção na eclusa de Fandango.
Cardoso ressalta que o uso de rodovias, o meio de transporte mais caro para grandes volumes, eleva o custo final dos produtos e impacta a competitividade da região. Para ele, o ideal seria o uso de hidrovias ou ferrovias para distâncias maiores que 300 km, mas isso exige uma mudança radical na característica do transporte no Brasil, priorizando meios mais eficientes, baratos e menos poluentes.

Júlio Kirchhoff
Apesar dos desafios, a região busca soluções. Júlio Kirchhof defende que a prioridade imediata é a recuperação das rodovias existentes, seguida da duplicação das vias com maior fluxo. Ele também menciona a iniciativa da Agência de Desenvolvimento de Santa Maria (ADESM) de implantar um Hub Logístico. “Esse projeto, se implantado, vai alterar completamente a economia da região. Mas para que aconteça, precisamos unir intensos esforços públicos e privados com este objetivo”, ressaltou.
A economia de Santa Maria
A economia de Santa Maria, um polo central, é notavelmente diversificada. Seu Produto Interno Bruto (PIB) aproxima-se de R$ 9,6 bilhões.
O setor de serviços é o maior contribuinte para a economia de Santa Maria, respondendo por 64,8% de seu valor adicionado. Essa predominância indica um forte setor terciário, que provavelmente atende tanto à população local quanto às atividades agrícolas e industriais circundantes. A administração pública contribui com 17,6% para o valor adicionado da cidade , refletindo seu papel como centro administrativo regional. Santa Maria também abriga o segundo maior contingente militar do país e uma frota significativa de veículos blindados, consolidando-se como a Capital Nacional dos Blindados e um Polo Tecnológico e de Defesa. Essa presença militar implica demandas logísticas específicas para equipamentos de defesa e pessoal.
A indústria contribui com 13% para o PIB de Santa Maria. Embora essa participação seja inferior às médias estadual e nacional (16,11% para o RS e 28,07% para o Brasil em 2010), a indústria da cidade é altamente diversificada, abrangendo cerca de 100 segmentos e 572 unidades de produção. Os principais setores industriais incluem metalmecânico, automotivo, eletroeletrônico, bebidas e alimentos, produtos químicos, construção civil e moveleiro. A presença de empresas como a Cofelma, especializada em equipamentos industriais agrícolas, evidencia a forte conexão entre a indústria e o setor agrícola predominante.
A agropecuária, por sua vez, contribui com 4,6% para o PIB de Santa Maria. Apesar dessa contribuição direta aparentemente menor, a região possui um elevado potencial agrícola. Um estudo de 2016 da Embrapa indicou que o solo e o clima de Santa Maria são férteis para pelo menos 16 culturas, incluindo as tradicionalmente cultivadas como soja e arroz, e novas como oliveiras, noz-pecã e frutas cítricas. Empresas como a SLC Agrícola concentram-se na produção em larga escala de algodão, soja e milho. Essa produção agrícola constitui uma base significativa para a demanda de cargas.


