Um novo capítulo se abre na complexa e histórica tentativa de revitalizar a malha ferroviária do Sul do país. Em uma demonstração de força política e alinhamento econômico, os governadores e as principais entidades do setor produtivo do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul formalizaram, na última quarta-feira, uma firme oposição aos planos do governo federal para a chamada Malha Sul.
O movimento, articulado por meio do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul), contesta frontalmente a nova Política Nacional de Concessões Ferroviárias e a Carteira de Projetos apresentada pelo Ministério dos Transportes.
O ponto central da discórdia é a proposta de fragmentação da Malha Sul. Enquanto o plano federal prevê dividir a atual estrutura em três frentes independentes — o Corredor PR/SC, o Corredor Mercosul e o Corredor Rio Grande —, o Grupo de Trabalho do Codesul argumenta que este formato pulverizado falha em atender às necessidades de recuperação do modal.
Para os estados do Sul, que juntos respondem por 18,3% do PIB brasileiro, a fragmentação ameaça a eficiência logística da região. A contraproposta defendida pelo bloco é a estruturação da nova concessão em bloco único, apontada como a saída mais viável para garantir escala econômica, coerência no escoamento de cargas e atratividade para o investidor privado.
Falta de diálogo e “apagão” técnico
Além do modelo de negócios, o tom do ofício enviado ao Ministério dos Transportes é de forte cobrança institucional. Os estados manifestaram profunda “inconformidade” com a condução do processo, acusando o governo federal de mantê-los à margem de decisões estruturantes e estratégicas.
A queixa ganha peso com a denúncia de falta de transparência: segundo o Codesul, os estudos técnicos da Malha Sul conduzidos pela estatal Infra S.A. não foram compartilhados com as equipes regionais. Em nota, o conselho destacou que a postura do ministério fere os princípios da cooperação federativa e inviabiliza contribuições técnicas qualificadas.
Para mudar o rumo das negociações, o bloco sulista apresentou uma lista de exigências e salvaguardas: Acesso imediato aos estudos: Disponibilização integral dos relatórios da Infra S.A. aos comitês estaduais. Resolução de passivos: Exigência de que a concessão vigente equacione seus passivos antes de um novo leilão, o que inclui a recuperação obrigatória de trechos abandonados, degradados ou inoperantes. Transição segura: Garantia de continuidade operacional das ferrovias que já estão em atividade, evitando o desabastecimento logístico entre o fim do contrato atual e o início do próximo.
Aliança entre o executivo e o setor produtivo
Demonstrando que a pauta não é apenas política, mas uma demanda de mercado, o documento enviado a Brasília unificou lideranças públicas e privadas. Assinam o manifesto os governadores Ratinho Junior (PR, atual presidente do Codesul), Jorginho Mello (SC), Eduardo Leite (RS) e Eduardo Riedel (MS).
Ao lado deles, subscrevem o texto os presidentes das Federações das Indústrias, da Agricultura, das Associações Empresariais e das Organizações das Cooperativas dos quatro estados — setores que dependem diretamente dos trilhos para escoar safras e a produção industrial até os portos.
Como próximo passo nesta queda de braço federativa, os estados do Codesul anunciaram que vão financiar e contratar um estudo técnico complementar por conta própria. O objetivo é desenhar um modelo alternativo de política pública e uma estrutura contratual robusta para a futura concessão, forçando o Ministério dos Transportes a reabrir a mesa de negociações sobre o destino do transporte ferroviário no Sul do Brasil.


