Ferroviário de cargas no Brasil: crescimento ameaçado por barreiras estruturais e regulatórias

Por Patrick de Avila Pozzobon

Impulsionado por investimentos privados, políticas públicas e avanços regulatórios, o transporte ferroviário de carga no Brasil vive um momento de crescimento. Em 2024, as concessionárias ferroviárias movimentaram mais de 540 milhões de toneladas úteis (TU), representando um aumento de 1,8% em relação ao ano anterior. Em termos de produção ferroviária, o setor chegou a 396,9 bilhões de toneladas por quilômetro útil (TKU), número 1,9% superior a 2023.

Segundo a ANTF (Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários), o cenário atual é resultado de três fatores principais: renovações antecipadas de concessões ferroviárias, aprimoramento regulatório e novas políticas públicas, como o mecanismo de investimento cruzado. Um exemplo é a construção da Fico 1, bancada pela Vale como contrapartida da renovação de contratos.

Apesar dos avanços, a malha ferroviária brasileira ainda enfrenta entraves estruturais históricos, como baixa densidade, bitolas variadas, trechos desativados, baixa diversificação de cargas e conflitos urbanos. “É fundamental avançar nas renovações pendentes de concessões, pois elas viabilizam a modernização da infraestrutura existente e desobstrução de novos investimentos privados”, defende a ANTF em nota à MODAL.

Entraves 

Entre os obstáculos à ampliação do modal ferroviário, a entidade destaca o alto custo de construção: em média, R$ 20 milhões por quilômetro de ferrovia, valor que varia de acordo com o relevo, tipo de solo e grau de urbanização da área. Ainda assim, a associação considera que o baixo investimento público em ferrovias é um dos principais gargalos, refletindo a histórica prioridade ao transporte rodoviário.

A diversificação da matriz de transporte, inclusive por razões ambientais, é um dos objetivos do setor. Segundo a  ANTF, o modal ferroviário emite 85% menos gases de efeito estufa do que o rodoviário e é oito vezes mais seguro, além de ser mais eficiente para longas distâncias e cargas pesadas.

Para ampliar a atratividade do modal, a ANTF propõe medidas como: aumento de recursos públicos para ferrovias, reinvestimento de valores obtidos com repactuações contratuais e a criação de linhas de crédito específicas, com prazos compatíveis com os longos ciclos de maturação do setor. A associação também defende que projetos ferroviários sejam elegíveis para financiamento via Fundo Clima, considerando seus benefícios ambientais.

Regulação 

A modernização regulatória tem sido outro eixo central da evolução do setor, dia a associação em declarações a este portal. “A recente inclusão, pela ANTT, do tema “Condições Gerais do Transporte Ferroviário (CGTF)” em sua agenda regulatória visa alinhar normas ao novo Marco Legal das Ferrovias (Lei nº 14.273/2021), buscando maior clareza contratual, segurança jurídica e estímulo à inovação”.

‘Paralelamente, o setor vem investindo em tecnologia e digitalização. A chamada “Ferrovia 4.0” já é uma realidade, com uso de Big Data, IoT, inteligência artificial, gêmeos digitais, drones e trens autônomos. Essas tecnologias otimizam a operação, reduzem custos, ampliam a segurança e tornam a logística mais eficiente.

A adoção de práticas sustentáveis também está no centro da estratégia das concessionárias, com metas de redução de emissões, modernização de frotas, uso de biocombustíveis, projetos de eficiência energética e parcerias com fabricantes para desenvolvimento de tecnologias mais limpas’, acrescenta.

Perspectivas

Para os próximos cinco a dez anos, a expectativa da ANTF é de crescimento contínuo do transporte ferroviário de cargas, sustentado por modernização, digitalização e aumento da capilaridade da malha. Projetos como a EF-118 (Vitória–Rio de Janeiro) e o corredor Fico-Fiol são considerados estratégicos nesse processo.

A associação acredita que uma política de Estado sólida, com equilíbrio entre setor público e privado, é essencial para consolidar esse avanço. “Cada 1% de aumento na participação das ferrovias na matriz de transporte reduz cerca de 2 milhões de toneladas de CO₂ por ano. Isso equivale ao carbono absorvido por uma floresta do tamanho da região metropolitana de São Paulo”, exemplifica a ANTF.

Apesar dos avanços, o setor ainda busca maior protagonismo dentro da política nacional de infraestrutura. O fortalecimento do ambiente de negócios, a previsibilidade regulatória e o apoio à inovação são vistos como caminhos para que o Brasil atinja um novo patamar logístico, mais eficiente, seguro e sustentável.

 

 

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