Investimento privado avança como protagonista no setor de infraestrutura

BRT do Rio de Janeiro

Embora persista a necessidade de maior planejamento, equilíbrio modal e mitigação de gargalos sistêmicos, especialmente na integração logística e na transmissão de energia, o conjunto dos setores de infraestrutura reflete um Brasil em transformação, com o investimento privado assumindo um papel cada vez mais protagonista, revela a 24ª Carta de Infraestrutura da Consultoria Inter B.

Segundo a Carta, o  setor de Transportes emerge como um pilar central na infraestrutura brasileira, enfrentando o persistente desafio de reequilibrar a matriz e aprimorar a qualidade do planejamento territorial, elementos cruciais para a competitividade nacional.

Com custos logísticos ainda elevados, próximos a 11,4% do PIB, o país precisa superar a baixa integração entre seus modais. Embora os investimentos totais projetados para o setor sejam robustos (R$ 84 bilhões em 2024 e R$ 90 bilhões em 2025), o modal rodoviário ainda domina, absorvendo 51% desses dispêndios. A expansão das concessões rodoviárias federais, com a meta de atingir 30.000 km concedidos até 2026, é um indicativo da priorização da parceria privada, mas requer um novo modelo de concessão que seja mais acessível a médias e pequenas empresas, complementando o formato atual e focando em projetos de menor complexidade.

A diversificação do transporte, essencial para a descarbonização e para a redução de custos, mostra sinais de avanço em outros modais:

O modal Ferroviário registrou um crescimento expressivo, com investimentos atingindo R$ 17,9 bilhões em 2024 e projetados em R$ 20 bilhões para 2025, quase integralmente aportados pelo setor privado  (98%). Esse salto se deve principalmente às renovações antecipadas de contratos de concessão, como os investimentos da Vale na FICO e da Rumo na Ferrovia Estadual de Mato Grosso. Paradoxalmente, o novo marco legal das ferrovias (regime de autorização), apesar de promissor, ainda não resultou no início de obras dos mais de 45 projetos autorizados, exceto pelo projeto da Rumo em Mato Grosso sob autorização estadual, sinalizando a necessidade de catalisar esses investimentos.

Em Hidrovias, contudo, os investimentos permanecem incipientes (média de R$ 0,7 bilhão em 2021-25), concentrados em melhorias pontuais (dragagem, sinalização). O foco do Governo Federal na Hidrovia do Rio Tocantins e a futura concessão da Hidrovia do Rio Paraguai (MS), a primeira do país, são passos importantes para aproveitar o potencial logístico desses eixos, sobretudo no contexto do crescimento do agronegócio e da expansão rodoviária em áreas como Rondônia.

O setor Portuário demonstra uma trajetória ascendente de investimentos privados, projetados em R$ 6,46 bilhões em 2025. Esse aumento é impulsionado por antecipação de renovação de arrendamentos, leilões de áreas em portos públicos e o crescimento dos Terminais de Uso Privado (TUPs), refletindo a demanda crescente por exportações e importações.

Nos Aeroportos, a consolidação do setor privado é evidente, com a 7ª rodada de concessões transferindo mais 15 aeroportos. Com apenas 8% dos R$ 4,35 bilhões previstos para 2025 vindo do setor público, a atuação dos concessionários privados impulsiona o crescimento e a modernização, com o Governo Federal voltando seu foco para a concessão de aeroportos regionais.

Os investimentos em Mobilidade Urbana continuam a crescer, mas dependem majoritariamente do setor público (79% em 2025). Essa alta participação estatal reflete o custo elevado dos sistemas de alta capacidade (metrôs, VLTs, BRTs) e a dificuldade em remunerar operadores privados sem a intervenção do Estado na construção e provisão de recursos de contrapartida. Obras como a Linha 6 do metrô de SP, o VLT de Salvador e a expansão da linha 1 e 2 do metrô de Belo Horizonte (concedida à Metrô BH) evidenciam a concentração em transporte de alta capacidade. A possível troca da concessionária SuperVia no Rio de Janeiro pode ser um ponto de inflexão para modernizar as linhas e reduzir a fragmentação do sistema metropolitano.

Na Energia Elétrica, a  desestatização de Eletrobrás e Copel impulsionou o investimento privado, majoritariamente em fontes renováveis (91% da capacidade adicionada em 2024) e micro e minigeração distribuída. No entanto, o rápido crescimento de fontes intermitentes (solar, eólica) e as restrições na transmissão e armazenamento estão gerando um crescente desequilíbrio entre oferta e demanda, exigindo ação do ONS (Operador Nacional do Sistema) com cortes forçados e vertimento de água turbinável. A solução passa por novos leilões de transmissão e reserva de potência, precificação de fontes por seus atributos e o fim dos subsídios.

No Saneamento Básico, a  aprovação do Novo Marco Legal (2020) gerou uma trajetória ascendente de investimentos, visando a universalização dos serviços (99% de água e 90% de esgoto até 2033). Impulsionados pelo êxito de desestatizações substanciais (Rio de Janeiro, Sabesp em São Paulo, etc.), os investimentos projetados para 2025 (R$ 46 bilhões) são um passo significativo, mas ainda insuficientes para atingir as metas no curto-médio prazo. O desafio é manter o ímpeto e evitar práticas clientelistas, focando em planejamento de longo prazo e programas descentralizados e inovadores, como o “1 Milhão de Cisternas”.

Em Telecomunicações, o setor viu uma queda nos investimentos a partir de 2023, impactado pela recuperação judicial da Oi e o subsequente leilão de seus ativos. O mercado de pequenos e médios provedores, que cresceu fortemente no interior, se apoia em grande parte em estruturas de rede existentes. A aquisição de ativos da Oi pela V.tal  (detentora de rede neutra) faculta à empresa prescindir de grandes investimentos em novas instalações, sinalizando uma fase de consolidação e otimização da infraestrutura existente.

 

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