Com inspiração no conceito global de Visão Zero, iniciativa une governo, empresas e sociedade civil em grupos de trabalho para combater a tragédia silenciosa no trânsito brasileiro.
O Brasil vive uma epidemia silenciosa no trânsito. Em 2023, o país registrou mais de 30 mil fatalidades decorrentes de acidentes e sinistros em vias urbanas e rodovias. Diante de um cenário que exige soluções estruturais urgentes, a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), com o suporte técnico da Urucuia, lançou oficialmente a Coalizão pela Segurança Viária durante a Bienal das Rodovias.
A meta é ambiciosa, porém vital: reduzir em 50% os óbitos e acidentes graves nas rodovias concessionadas até o ano de 2037.
A realidade brasileira e o cenário global
Para compreender a dimensão da iniciativa, é preciso olhar para o panorama da violência viária no Brasil e no mundo.
O Brasil figura entre os países mais letais do planeta em tráfego de veículos.
Motociclistas, pedestres e ciclistas representam a maior parcela dos feridos graves e vítimas fatais no país.
Estima-se que os acidentes de trânsito custem dezenas de bilhões de reais por ano aos cofres públicos em despesas hospitalares, previdenciárias e perda de produtividade.
Como funcionará a coalizão
Com 60 empresas associadas, a ABCR gerencia 32 mil quilômetros de rodovias concedidas, malha por onde trafegam mais de 60% do transporte de carga e passageiros pagantes do país.
A Coalizão será estruturada nos moldes da bem-sucedida Coalizão para a Descarbonização dos Transportes e será organizada em seis Grupos de Trabalho (GTs) específicos:
- Advocacy: Articulação institucional e aprimoramento de marcos regulatórios.
- Engenharia de Tráfego: Infraestrutura defensiva e modernização de vias.
- Gestão de Riscos: Mapeamento de pontos críticos e inteligência de dados.
- Segurança Veicular: Incentivo a frotas mais seguras e de tecnologia assistida.
- Formação, Educação e Comunicação: Campanhas de conscientização e capacitação de motoristas.
- Usuários Vulneráveis: Proteção focada em pedestres, ciclistas e motociclistas.
Inscrições bbertas e próximos passos
Os Grupos de Trabalho têm início na segunda quinzena de julho. Especialistas, representantes do setor público, acadêmicos, membros da iniciativa privada e da sociedade civil já podem se inscrever para integrar as discussões.
As propostas debatidas nas seis vertentes serão reunidas em um Relatório Público, que servirá de diretriz para nortear políticas e investimentos de segurança viária em todo o território nacional nas próximas décadas.
“Queremos reunir os setores público e privado, a academia e a sociedade civil para construir, de forma integrada, soluções e adotar medidas concretas que contribuam para reduzir em 50% as mortes e os sinistros graves nas rodovias concessionadas até 2037”, reforça Marco Antonio Giusti, diretor executivo da ABCR.
A abordagem da Visão Zero (Nollvisionen) nasceu na Suécia em 1997, quando o parlamento local aprovou uma mudança radical de paradigma: a ideia de que mortes e lesões graves no trânsito não são “preço do progresso”, mas sim falhas do sistema viário.
A grande virada conceitual foi inverter a culpa tradicional. O foco deixou de ser “educar o motorista perfeito” e passou a ser projetar uma infraestrutura defensiva que tolera o erro humano sem cobrar uma vida em troca.
Os 4 pilares da visão zero
A metodologia é fundamentada em princípios éticos e biomecânicos claros:
- A imperfeição é inevitável: Seres humanos cometem erros por distração, cansaço ou imprevistos. O sistema precisa prever essas falhas e absorver a energia do impacto.
- Limites de tolerância do corpo humano: O design do trânsito deve ser calibrado para que, em caso de colisão, as forças físicas exercidas sobre os ocupantes ou pedestres fiquem abaixo do limite fatal.
- Responsabilidade compartilhada: A responsabilidade não é exclusiva do condutor. Projetistas, engenheiros, fabricantes de veículos e gestores públicos dividem a obrigação de garantir a segurança.
- Segurança sobre a velocidade pura: A mobilidade é importante, mas a integridade física tem prioridade absoluta sobre a fluidez rápida do tráfego.
Aplicação prática em rodovias: o caso sueco
Em rodovias, onde as velocidades são elevadas, a aceleração e a massa aumentam drasticamente a gravidade dos sinistros. A Suécia reengenheirou suas estradas com intervenções físicas diretas:
- Modelo de pistas 2+1 (O “Curinga” Sueco)
A Suécia transformou centenas de quilômetros de pistas simples tradicionais no modelo 2+1.
- Como funciona: Uma pista de três faixas onde a faixa central alternation o sentido de ultrapassagem a cada 1,5 km a 2 km.
- Segregação: Uma barreira física de cabos de aço flexíveis separa os fluxos opostos.
- Resultado: Elimina quase 100% dos choques frontais (os mais letais em rodovias) sem a necessidade de duplicar toda a extensão da via, reduzindo drasticamente os custos de obra.
- Rodovias perdoadoras (Forgiving Roadsides)
As margens das estradas são projetadas para minimizar o impacto se o veículo sair da pista:
- Remoção de obstáculos rígidos (como árvores, postes de concreto ou rochas) nas áreas de escape.
- Instalação de defensas metálicas de deformação programada (guardrails) e atenuadores de impacto.
- Suavização de taludes e canteiros laterais.
- Gestão severa da velocidade por energia cinética
Os limites de velocidade não são definidos por conveniência de fluxo, mas pela física do impacto suportado pelo corpo:
- 70 km/h em cruzamentos rodoviários de mesmo nível sem separação física.
- 80 km/h em pistas simples sem separação física central.
- 100 a 120 km/h apenas em rodovias completamente segregadas (pistas duplas ou 2+1 com barreira física).
- Interseções seguras e rotatórias alongadas
Cruzamentos em “T” ou cruzamentos perpendiculares em velocidade de rodovia foram substituídos por:
- Rotatórias de grande raio em acessos rodoviários, obrigando a redução da velocidade para níveis não
- letais (<50 km/h).
- Viadutos e viários desnivelados para eliminar pontos de conflito direto.
Resultados práticos
A Suécia saiu de taxas substanciais nos anos 1990 para registrar cerca de 2,0 mortes por 100 mil habitantes, uma das menores taxas do planeta.
Para fins comparativos: no modelo tradicional, busca-se punir o motorista após o erro; na Visão Zero, a própria geometria da via impede que a imprudência ou a distração se transformem em fatalidade.
Quando comparado a outras nações, a necessidade de intervenção torna-se ainda mais evidente:
| Região / País | Taxa de Mortalidade (por 100 mil hab.) | Contexto / Referência |
| União Europeia (Média) | ~4,6 | Referência em fiscalização rigorosa e desenho urbano seguro. |
| Suécia (Pioneira em Visão Zero) | ~2,0 | Menores taxas do mundo devido à infraestrutura adaptada a falhas humanas. |
| Estados Unidos | ~12,8 | Enfrenta alta taxa entre países desenvolvidos por longas distâncias rodoviárias. |
| Brasil | ~15,0 a 16,0 | Entre os líderes absolutos em mortes absolutas nas Américas (OMS). |


