Por Patrick de Avila Pozzobon
A Motiva, novo nome da CCR, um dos maiores grupos de infraestrutura do Brasil, deu início ao processo de venda de todos os ativos aeroportuários sob sua gestão. Ao todo, são 20 aeroportos, dos quais 17 no Brasil e três no exterior. A medida faz parte da estratégia de reciclagem de capital da companhia, que busca concentrar investimentos em setores prioritários, como rodovias e mobilidade urbana.
Para estruturar a operação, a Motiva contratou o Itaú Unibanco e a consultoria Lazard como assessores financeiros. O processo competitivo já está em andamento, com a participação de diversos potenciais compradores interessados. Segundo fato relevante divulgado pela empresa, as negociações entraram na fase de propostas não vinculantes, ou seja, ainda sem compromissos firmados nem cláusulas de exclusividade — o que permite à companhia continuar avaliando alternativas de desinvestimento em paralelo.
A empresa reforçou, em comunicado ao mercado, que está atenta à possível disseminação de informações imprecisas, algo comum em processos com múltiplas partes envolvidas, e se comprometeu a manter os acionistas e o mercado informados sobre qualquer atualização relevante conforme a legislação.
A expectativa é de que o desinvestimento possa render até R$ 10 bilhões, valor que poderá ser usado para disputar novos leilões de concessão de infraestrutura. Atualmente, os aeroportos representam cerca de 10% da receita da Motiva, enquanto o segmento de concessões rodoviárias concentra mais de 60% das operações.
Ativos à venda
A entrada da empresa no setor aeroportuário começou em 2012, com a aquisição do aeroporto de Quito, no Equador. Ainda naquele ano, a então CCR Aeroportos passou a operar os terminais de Curaçao e da Costa Rica. No Brasil, estreou com o leilão de Confins, em Belo Horizonte (2013), e ampliou a atuação em 2021, quando venceu os blocos Sul e Centro-Oeste de concessão. Em 2022, assumiu também o aeroporto da Pampulha.
Hoje, a carteira de ativos à venda inclui importantes terminais regionais e turísticos, como Afonso Pena (Curitiba), Cataratas (Foz do Iguaçu), Navegantes (SC), Santa Genoveva (Goiânia) e Confins (MG). A lista completa de aeroportos brasileiros administrados pela Motiva que serão negociados: Afonso Pena – São José dos Pinhais/Curitiba (PR), Bacacheri – Curitiba (PR), Cataratas – Foz do Iguaçu (PR), Governador Beto Richa – Londrina (PR), Lauro Carneiro de Loyola – Joinville (SC), Ministro Victor Konder – Navegantes (SC), Comandante Gustavo Kraemer – Bagé (RS), Pelotas (RS), Rubem Berta – Uruguaiana (RS) (na foto), Santa Genoveva – Goiânia (GO), Marechal Cunha Machado – São Luís (MA), Prefeito Renato Moreira – Imperatriz (MA), Brigadeiro Lysis Rodrigues – Palmas (TO), Senador Nilo Coelho – Petrolina (PE), Senador Petrônio Portella – Teresina (PI), Confins/Tancredo Neves – Belo Horizonte (MG) e Pampulha – Belo Horizonte (MG).
Estratégia
A decisão de desinvestir no segmento acompanha um movimento de consolidação do setor. Em declarações recentes, o presidente-executivo da Motiva, Miguel Setas, apontou que o mercado aeroportuário brasileiro é muito fragmentado e que uma redução no número de operadores pode gerar ganhos de eficiência operacional.

Miguel Setas
A empresa já sinalizava, desde 2023, a intenção de rever sua posição nos aeroportos, sobretudo aqueles em que não detinha controle total. Inicialmente, a ideia era formar parcerias ou vender ativos específicos. Agora, com a mudança de estratégia, todo o portfólio poderá ser negociado.
Em teleconferência de resultados, Setas disse que o grupo está em “fase preparatória” e quer “maximizar valor numa eventual transação”, reforçando que não há urgência no processo.
Obras em andamento
Apesar do movimento de saída, a Motiva segue cumprindo compromissos contratuais. A companhia prevê investir R$ 846 milhões nos aeroportos em 2025, incluindo obras importantes como o novo plano diretor do aeroporto de Navegantes (SC) e a nova pista no Afonso Pena (PR).
Todos os contratos de concessão permitem a transferência de gestão a outros operadores, desde que haja aprovação do poder concedente — no caso dos aeroportos federais, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Até o momento, nenhum pedido oficial foi protocolado junto à agência.
O anúncio de venda acontece no mesmo momento em que a empresa celebra resultados positivos: no primeiro trimestre de 2025, a Motiva registrou lucro líquido ajustado de R$ 539 milhões (alta de 20,2%) e Ebitda ajustado de R$ 2,36 bilhões, crescimento de 14% em relação ao ano anterior. A receita líquida ajustada no período chegou a R$ 3,73 bilhões.
Os números reforçam a solidez da companhia e sustentam a estratégia de focar em segmentos mais rentáveis, como rodovias e mobilidade urbana, em busca de maior retorno e ganho de escala, diz Waldo Perez, diretor vice-presidente de finançãs e relações com o mercado.


