Há quase dez anos, o jornalismo da Revista Modal acompanha e denuncia o abandono progressivo da Malha Sul ferroviária. Em editoriais e reportagens especiais assinadas pelo jornalista Milton Wells, o portal vem monitorando os trechos paralisados, o sucateamento crônico da infraestrutura sob a gestão da Rumo Logística e os complexos embates políticos que envolvem essa concessão. Esse histórico de negligência culminou em uma perda drástica de competitividade regional, agravada de forma definitiva pelo colapso estrutural decorrente das enchentes climáticas, que destruíram mais de 1.140 quilômetros de trilhos no Rio Grande do Sul.
Com a proximidade do término do contrato de concessão, previsto para fevereiro de 2027, a cobertura do portal intensificou-se drasticamente entre os anos de 2025 e 2026. A Revista Modal converteu-se em um termômetro das discussões de transição regulatória, registrando relatórios e análises críticas em julho, agosto e dezembro de 2025, além de desdobramentos cruciais em junho e julho de 2026. O estopim do debate atual ocorreu durante as recentes audiências públicas realizadas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) em julho de 2026, onde a proposta de modelagem do Governo Federal gerou forte reação das lideranças sulistas. Uma das principais manifestações documentadas pelo portal, em 29 de julho de 2026, detalhou a mobilização do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (CODESUL) na sede da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), explicitando o profundo receio regional frente à segmentação da malha.
Diante do plano da ANTT de fragmentar a ferrovia em três blocos independentes — divididos entre o Corredor Paraná-Santa Catarina, o Corredor Mercosul e o Corredor Rio Grande —, o governador Eduardo Leite assumiu uma postura de liderança firmemente contrária à proposta federal. Atuando de forma alinhada com os demais governadores do CODESUL, Leite rejeita integralmente o fatiamento e exige que a concessão ocorra como um bloco único regional. A argumentação técnica defendida pelo governo gaúcho aponta que a divisão fragmenta e fragiliza economicamente o Rio Grande do Sul, desarticulando o sistema logístico ao isolar polos produtivos essenciais que dependem de uma operação integrada para manter a viabilidade econômica do transporte de cargas.
Como contraponto técnico à modelagem elaborada pela estatal federal Infra S.A., a gestão de Eduardo Leite exige formalmente o adiamento do leilão da concessão, originalmente desenhado para o final de 2026 e estendido para 2027. O objetivo do Estado é aguardar a conclusão de um estudo de viabilidade independente que está sendo financiado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), utilizando esses dados para contestar a viabilidade do plano federal. Além da disputa pelo modelo de concessão, o governador impõe como condição inegociável que qualquer novo contrato ou renovação de outorga contenha cláusulas rígidas de investimentos obrigatórios e imediatos em solo gaúcho. A postura do Executivo estadual determina que os recursos gerados por outorgas ou penalidades contratuais sejam vinculados por lei à reconstrução da malha destruída pelas enchentes dentro do próprio território, impedindo legalmente que os valores sejam captados pela União e desviados para projetos de infraestrutura em outras regiões do país.
Os estudos da FIERGS
Os estudos técnicos e os relatórios apresentados pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS) traçam um cenário alarmante para a economia regional caso o Governo Federal e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) insistam no fatiamento da Malha Sul ferroviária em três blocos independentes. A análise da federação aponta que a divisão e o consequente abandono da malha integrada podem decretar o fim do transporte ferroviário de cargas de longa distância no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, provocando um efeito cascata que afetará severamente a competitividade industrial e do agronegócio exportador pelos próximos 30 anos.
O principal pilar das previsões da FIERGS reside na quebra do modelo de subsídio cruzado que atualmente sustenta a malha regional. O desenho proposto pela ANTT separa o corredor do Paraná — que é altamente superavitário e atrativo para o mercado privado — dos trechos que atendem o Rio Grande do Sul (Corredor Rio Grande) e Santa Catarina (Corredor Mercosul). Como os ramais gaúchos e catarinenses operam de forma historicamente deficitária e dependem da interligação logística com o restante do país para fechar a conta financeira, a federação prevê que o lote gaúcho perderá completamente a atratividade comercial. Na prática, a projeção indica um risco iminente de os futuros leilões desses dois trechos terminarem desertos por total falta de investidores interessados, o que resultará na paralisação definitiva dessas linhas férreas.
Em termos de volume e movimentação física de mercadorias, os impactos calculados pela FIERGS quantificam uma frustração severa de demanda. A desarticulação logística provocará uma perda direta estimada em mais de 4 milhões de toneladas úteis em transporte de cargas na região Sul. Esse encolhimento ocorrerá porque o novo traçado federal sufoca polos produtivos fundamentais para o desenvolvimento regional, isolando municípios estratégicos para o interior gaúcho, como Passo Fundo, Erechim, Santa Rosa, Santo Ângelo e Ijuí. Sem o modal ferroviário ativo e eficiente para o escoamento, importantes cadeias de valor serão rompidas, desestruturando o transporte de grandes safras de grãos, o abastecimento das indústrias de biocombustíveis e isolando o Polo Petroquímico de Triunfo das redes nacionais de distribuição.
Por fim, a federação projeta consequências drásticas sobre os custos operacionais das empresas e o preço final dos produtos. Sem a alternativa ferroviária — cujo frete chega a ser até 50% mais barato que o rodoviário —, as indústrias serão forçadas a migrar permanentemente todas as suas cargas para as rodovias, sobrecarregando o sistema de transportes e elevando de forma severa o chamado “Custo Brasil”. A FIERGS alerta ainda que a modelagem federal peca por subestimar a capacidade de geração de novos negócios na região, desconsiderando investimentos privados já em andamento, como a implantação de novas plantas industriais em Cruz Alta. O fatiamento da ferrovia agirá como um forte desincentivo à expansão industrial do Rio Grande do Sul, uma vez que o setor privado evitará realizar grandes aportes financeiros em plantas fabris inseridas em um ambiente logístico fragmentado, caro e ineficiente.


