As obras de implantação da rodovia BR-285, no trecho entre São José dos Ausentes e a divisa com Santa Catarina, continuam em andamento, mas em ritmo lento. Apesar de um investimento de aproximadamente R$ 72 milhões do governo federal, a falta de repasses orçamentários tem gerado preocupação entre as lideranças locais da região dos Campos de Cima da Serra.
Com 30,45% dos serviços executados, a expectativa de conclusão do empreendimento do Dnit é para o final de 2026. No entanto, o coordenador do grupo pró-BR 285, Jeziel de Aguiar Pereira, afirma que a paralisação de verbas ameaça seriamente este cronograma.
“As obras não estão paralisadas, mas havia mais de 50 pessoas trabalhando e hoje são apenas 15 ou 20. Nesse ritmo, vai levar mais de dois anos”, acrescenta. Ele explica que a obra, que fará parte do corredor bioceânico que ligará o RS até o porto de Antofagasta, no Chile, estratégico ao Canal do Panamá e ao Estreito de Magalhães, com redução do tempo e custo para o escoamento de produção agrícola e pecuária.
Um dos pontos mais críticos do projeto é a construção da Ponte sobre o Rio das Antas, com 400,4 metros de extensão. Localizada em uma área ambientalmente sensível, a ponte é essencial para transpor a nascente do rio. Segundo Aguiar, embora os pilares já estejam erguidos, a falta de dinheiro tem impedido o avanço da parte superior da estrutura e a conclusão da terraplenagem dos 2,5 km restantes do trecho.
A conclusão da BR-285 é vista como fundamental para o futuro da economia local, baseada no agronegócio e em um crescente setor de turismo. A rodovia facilitaria o transporte de produtos como maçã, pera, grãos e carne, que hoje dependem de rotas precárias. Além disso, a pavimentação completa da via tornaria os deslumbrantes cânions e paisagens dos Campos de Cima da Serra mais acessíveis, impulsionando o ecoturismo e o turismo rural na região.
Jeziel de Aguiar Pereira, que atua em prol da rodovia desde 2009, lamenta o impacto social do atraso: “As pessoas estão indo embora. Há uma desmobilização na comunidade.” Ele revela que, para cumprir o prazo prometido, a obra precisa de mais R$ 25 milhões para fechar o ano e outros R$ 35 milhões em 2026.
Das três empresas que venceram a licitação — Planaterra, Iguatemi e Traçado — apenas a Traçado, segundo Aguiar, continua atuando de forma mais significativa, focando nos pilares da ponte.
A comunidade local e as lideranças políticas aguardam um novo aporte financeiro para que a promessa de desenvolvimento e integração se torne realidade antes que seja tarde demais para as famílias que dependem da estrada para prosperar.
A economia da região dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, é fortemente baseada no agronegócio, mas tem visto o turismo se fortalecer como uma atividade complementar e de grande potencial. A combinação de sua altitude elevada, clima rigoroso e vasta área de campos naturais cria um cenário ideal para atividades específicas que se destacam no estado.
O setor agropecuário é o motor econômico da região. Os municípios dos Campos de Cima da Serra são conhecidos por uma produção diversificada e de alta qualidade. A região é um dos principais polos de produção de maçã do Brasil. O clima frio e a altitude são condições perfeitas para o cultivo da fruta. Além da maçã, outros cultivos como a pera e a uva também são relevantes. A criação de bovinos de corte e de leite é uma atividade tradicional e de grande importância econômica. A pecuária familiar também se destaca, sendo a base para a produção do Queijo Serrano, um produto artesanal com grande valor cultural e econômico para a região.
A agricultura de grãos também é presente, com o cultivo de soja, milho e trigo, que complementam a diversificação do agronegócio local. Embora o agronegócio seja o pilar da economia, o turismo tem ganhado cada vez mais espaço e se consolidado como uma fonte de renda e desenvolvimento para a região.
A beleza natural dos Campos de Cima da Serra, com seus cânions, cachoeiras e paisagens de tirar o fôlego, atrai visitantes em busca de ecoturismo e atividades de aventura. O turismo rural também é um grande atrativo, onde o visitante pode vivenciar o dia a dia das fazendas, participar da produção de queijos e se conectar com a cultura local.
Cidades como Cambará do Sul se tornaram referências nacionais por estarem próximas de cânions icônicos, como o Fortaleza e o Itaimbezinho. A gastronomia típica, o clima de montanha e a neve no inverno também são fatores que impulsionam o fluxo de turistas.
Em resumo, a economia dos Campos de Cima da Serra é uma combinação de tradição e modernidade, onde o forte setor agropecuário, com destaque para a fruticultura e a pecuária, coexiste e se complementa com um crescente e promissor mercado turístico.
Origem
A estrada da Rocinha, antes da BR-285, não era uma rodovia no sentido moderno, mas sim um caminho histórico que moldou a vida nos Campos de Cima da Serra. Por muito tempo, a única forma de ligar a região ao litoral de Santa Catarina era por meio de tropas de mulas e gado.
Imagine a cena: um rio de animais descendo a serra, guiado por tropeiros que conheciam cada curva e cada perigo do percurso. A viagem era uma verdadeira odisseia que levava cerca de quatro dias para ser concluída, um reflexo do quão precária e perigosa era a rota. O gado se extraviava, a mata fechada escondia os perigos e a ausência de infraestrutura tornava a jornada uma prova de resistência. Essa via, forjada pelo movimento e trabalho dos tropeiros, foi o que permitiu o escoamento da produção e a comunicação entre as comunidades isoladas.
O primeiro traçado da “estrada da Rocinha” começou a ser idealizado na década de 1930, quando a comunidade de Timbé do Sul se mobilizou para criar uma via que pudesse ser usada por veículos. As obras, realizadas com pouca tecnologia e muito esforço braçal, foram concluídas em 1942. Foi um marco, mas ainda estava longe de ser a estrada pavimentada e segura que a população almejava.


