Seis anos após a reformulação do arcabouço regulatório que abriu o setor de saneamento do Brasil ao capital privado, a maior economia da América Latina começa a colher os frutos financeiros e sociais do que se consolida como um dos ciclos de investimento em infraestrutura mais agressivos de sua história recente.
A atração maciça de capital corporativo, impulsionada por marcos contratuais rígidos e pela previsibilidade jurídica, alçou os serviços de água e esgoto a uma posição de destaque no cenário macroeconômico nacional. O diagnóstico consta na mais recente edição do relatório Panorama da Universalização do Saneamento, publicado pela Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (ABCON).
Em 2024, o setor aportou R$ 29,1 bilhões em obras de infraestrutura de água e esgotamento sanitário — um avanço de 9% em relação ao ano anterior, cimentando o terceiro recorde anual consecutivo de alocação de capital. Trata-se de uma expansão com ritmo de execução muito superior ao da média da economia brasileira, evidenciando a resiliência do segmento em meio a um ambiente global de juros ainda exigentes.
O reflexo no balanço das concessões e PPPs traduz-se em métricas operacionais claras: desde a promulgação da legislação em 2020, o número de domicílios com abastecimento diário de água saltou de 52,8 milhões para 60,5 milhões — uma expansão de 15%, trazendo 7,7 milhões de novas residências para a rede. No segmento de esgotamento, o avanço foi ainda mais pronunciado, com a incorporação de 9,3 milhões de novos lares. O volume total de efluentes tratados cresceu 5% no último ano comparado, equivalente ao processamento contínuo de 1,9 milhão de piscinas olímpicas de esgoto que deixaram de poluir corpos hídricos.
Para o mercado financeiro e os fundos de investimentos que operam no setor de infraestrutura, os números de leilões ratificam o apetite por ativos regulados no país. Entre 2020 e meados de 2026, o Brasil realizou 70 leilões de saneamento, contratando um montante expressivo de R$ 227 bilhões em investimentos previstos, alcançando 2.480 municípios e cerca de 100 milhões de habitantes. No pipeline de projetos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o mercado estruturam outros 31 projetos, que devem injetar R$ 32 bilhões adicionais em mais 636 municípios.
Efeitos secundários: qualificação e massa salarial
A injeção sistemática de capital corporativo no setor alterou a dinâmica do mercado de trabalho associado às concessionárias. Em 2025, o contingente de trabalhadores diretos do setor expandiu 6,9%. Todavia, o dado mais revelador para a eficiência operacional reside na sofisticação técnica do quadro funcional: o número de profissionais com diploma universitário ou títulos de pós-graduação cresceu 22,6% na comparação com 2019.
Essa migração para serviços de maior valor agregado se reflete na remuneração. O salário médio praticado pelas concessionárias e operadoras atingiu R$ 6.595 em 2025 — um patamar 74% superior à média da economia brasileira (R$ 3.783) e correspondente a cerca de quatro vezes o salário mínimo nacional. Ao todo, a massa salarial distribuída pelo setor somou R$ 28,6 bilhões no ano passado, pressionando positivamente o consumo e a arrecadação em economias locais de médio e pequeno porte.
O avanço ocorreu em paralelo à expansão da responsabilidade social corporativa. O volume de residências atendidas pela tarifa social subiu de 2,6 milhões em 2019 para 3,8 milhões em 2024, antecipando-se aos efeitos da recente legislação nacional de subsídio tarifário.
O déficit residual e o risco de execução
A despeito da trajetória ascendente dos indicadores, a ABCON destaca que o gargalo de execução do país rumo às metas estipuladas para 2033 permanece substancial — especialmente no tratamento de efluentes. Até o momento, 780 municípios atingiram a meta de universalização da água potável, enquanto apenas 321 cidades alcançaram a cobertura total em coleta e tratamento de esgoto. Contratos vigentes cobrem metas de água em 3.625 municípios e de esgoto em 3.774.
A transição da infraestrutura do papel para a pista dependerá diretamente da manutenção das regras do jogo e da capacidade técnica das concessionárias em mitigar gargalos operacionais e de suprimentos.
“Os resultados demonstram que o Marco Legal elevou o saneamento no Brasil a um patamar inédito de investimento público e privado,” pontuou Christianne Dias, diretora-presidente da ABCON. “O imperativo agora é garantir a estabilidade e a clareza regulatória para que esses contratos sejam executados com rigor técnico dentro do prazo limite de 2033.”


