Gargalos ainda impedem o avanço do mercado de carbono no país, segundo o economista Daniel Vargas da FGV

Daniel Vargas: " O que é o crédito de carbono? É uma mercadoria, tributada por ICMS, ou um serviço, tributado por ISS? É um título mobiliário ou outra coisa? "

O mercado de créditos de carbono, certificado que atesta e reconhece a redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE), ainda deve patinar no Brasil. Segundo o economista  Daniel Vargas, coordenador do Observatório de Bioeconomia da FGV, existem lacunas a serem resolvidas e a primeira delas é o aspecto jurídico. “Falta uma lei nacional que defina com clareza como esse mercado funcionará entre nós, quem poderá vender o quê, e quem poderá comprar”, assinala Vargas.
Em sua visão, o segundo passo é organizacional. “Falta ao país uma certificadora nacional, mais rigorosa e ágil que ONG Internacional Verra, hoje sentada em processos lentos e caros”
Para que não persista no país no país, um mercado restrito a poucas empresas, o economista defende o avanço na educação. “Precisamos treinar produtores brasileiros para compreender e atuar o mercado de carbono”, afirma.
“Se bem organizado, o mercado pode cumprir parte desta tarefa de escola. Outra parte deve ser feita por assistência técnica especializada. Tudo isso é importante para abrir as portas do carbono”.

Mercado voluntário em evolução

Hoje, o Brasil, segundo Vargas, possui um mercado voluntário em evolução. Existem em torno de 160 projetos, distribuídos pelas regiões do país, a maior parte de créditos provenientes do setor florestal de conservação.

A diferença básica entre mercado voluntário e regulado está na demanda, na obrigação de cortar emissões. Quando a demanda é fixada pela lei, chamamos o mercado de regulado. Quando é autodeterminada por uma empresa, que decide corte sua pegada de carbono, chamamos de mercado voluntário, ensina Vargas que também é professor da Escola de Economia da FGV em São Paulo e da FGV Direito Rio.
Atualmente, mais de 90% dos créditos de carbono comercializados no Brasil são certificados pela ONG internacional chamada Verra. No mundo, a Verra também tem uma presença forte—certifica 70% dos créditos. “É quase um monopólio do serviço de certificações”, observa o economista.

Processo artesanal

No Brasil, a compra e venda de créditos obedece a um processo artesanal. “O interessado  acessa a página da Verra, na Internet, e baixa um Excel para verificar quem tem créditos para vender, pega o telefone, liga diretamente para a pessoa e negocia o preço. Acordada a transação, informa a Verra, que desconta o crédito de carbono da “conta” do vendedor”, explica.

O preço do crédito de carbono, observa, varia conforme o tipo do crédito. “Não há um preço único. Se for um crédito de regeneração florestal, por exemplo, a tonelada não costuma sair de menos de U$20. Créditos de outras atividades costumam ter preços menores, entre US$ 8 e  US$ 15.

Hoje, o setor que mais cresce, no país, é o florestal, em particular de regeneração. Há, contudo, a expectativa de que atividades do agronegócio sejam reconhecidas como legítimas geradoras do crédito de carbono em breve. A Europa discute, neste momento, a regulamentação dos chamados “certificados”. Se chegar entre nós, o setor agropecuário pode se tornar, além de produtor de alimentos, também um gerador de créditos de carbono, acrescenta Vargas.

“Petit comité”

O professor repara que, no Brasil, atualmente predomina um grupo muito restrito de atores, que inclui organizações sociais e desenvolvedores de projetos, muito bem conectados e afinados com a burocracia do clima. “É um “petit comité” do carbono” que domina e orienta o funcionamento deste sistema de trocas. Para o mercado crescer, esta bolha precisa ser furada”.

Otimista em relação aos cenários do mercado de créditos de carbono no Brasil, Vargas adverte que ainda há muitas dúvidas a superar. “Por exemplo, qual a natureza do crédito de carbono? É uma mercadoria, tributada por ICMS, ou um serviço, tributado por ISS? É um título mobiliário ou outra coisa? O mercado de carbono é uma corrida de obstáculos. Em todos os países, há barreiras a superar. Ganha mais quem sai na frente, com altivez, e encara o desafio de frente, para conquistar o prêmio verde. O Brasil, com todo o seu potencial sustentável, não pode ficar fora disso”, finaliza.

 

Facebook
X
LinkedIn
WhatsApp
Email
Threads

Últimas Notícias

Como R$ 102 bilhões em concessões empurram as rodovias brasileiras para a era digital

O anúncio feito pelo Ministério dos Transportes de uma carteira de concessões rodoviárias de R$ 102,68 bilhões, prevista para 2027, marca o início de uma nova fase para a infraestrutura brasileira, impulsionada pelo avanço da engenharia digital. Apresentado na B3, em São Paulo, o pacote reúne nove leilões de concessão e dois de otimização de contratos existentes, contemplando 569 quilômetros de duplicações e 550 quilômetros de faixas adicionais, com leilões agendados entre junho e dezembro de 2027. A urgência da

Leia Mais »

Mundial Logistics completa 28 anos e mira crescimento de 20% com integração total entre armazém e PDV

Em um cenário em que o varejo exige precisão cirúrgica e agilidade milimétrica, a linha que separa o estoque da prateleira deixou de ser apenas física para se tornar puramente estratégica. É sob essa premissa que a Mundial Logistics celebra seus 28 anos em 2026, projetando um salto de 20% em seu faturamento para este ano, após alcançar a marca de R$ 250 milhões. Fundada em 1998 em um espaço modesto de 500 metros quadrados na capital paulista, a companhia

Leia Mais »

BR-386 ganha novo marco com conclusão de duplicação e dispositivos de segurança entre Soledade e Fontoura Xavier

A infraestrutura logística do Rio Grande do Sul alcançou um novo patamar de eficiência operacional com a conclusão das obras de duplicação de um trecho crucial da BR-386. A concessionária ViaSul, do grupo Motiva, segundo nota à imprensa, liberou totalmente ao tráfego o segmento de 25,6 quilômetros situado entre os municípios de Soledade e Fontoura Xavier. Em termos operacionais, o projeto resolve gargalos históricos de capacidade e segurança ao segregar o tráfego de longa distância — dominado pelo transporte pesado

Leia Mais »
Não temos mais posts para mostrar

Como R$ 102 bilhões em concessões empurram as rodovias brasileiras para a era digital

O anúncio feito pelo Ministério dos Transportes de uma carteira de concessões rodoviárias de R$ 102,68 bilhões, prevista para 2027, marca o início de uma nova fase para a infraestrutura brasileira, impulsionada pelo avanço da engenharia digital. Apresentado na B3, em São Paulo, o pacote reúne nove leilões de concessão e dois de otimização de contratos existentes, contemplando 569 quilômetros de duplicações e 550 quilômetros de faixas adicionais, com leilões agendados entre junho e dezembro de 2027. A urgência da

Leia Mais »

Mundial Logistics completa 28 anos e mira crescimento de 20% com integração total entre armazém e PDV

Em um cenário em que o varejo exige precisão cirúrgica e agilidade milimétrica, a linha que separa o estoque da prateleira deixou de ser apenas física para se tornar puramente estratégica. É sob essa premissa que a Mundial Logistics celebra seus 28 anos em 2026, projetando um salto de 20% em seu faturamento para este ano, após alcançar a marca de R$ 250 milhões. Fundada em 1998 em um espaço modesto de 500 metros quadrados na capital paulista, a companhia

Leia Mais »

BR-386 ganha novo marco com conclusão de duplicação e dispositivos de segurança entre Soledade e Fontoura Xavier

A infraestrutura logística do Rio Grande do Sul alcançou um novo patamar de eficiência operacional com a conclusão das obras de duplicação de um trecho crucial da BR-386. A concessionária ViaSul, do grupo Motiva, segundo nota à imprensa, liberou totalmente ao tráfego o segmento de 25,6 quilômetros situado entre os municípios de Soledade e Fontoura Xavier. Em termos operacionais, o projeto resolve gargalos históricos de capacidade e segurança ao segregar o tráfego de longa distância — dominado pelo transporte pesado

Leia Mais »
Não temos mais posts para mostrar

Sua marca entre os principais players da logística nacional

A Revista Modal oferece espaços publicitários e oportunidades de parceria para empresas que desejam se destacar no setor.

Entre em contato e solicite nosso Mídia Kit.