“Câmbio não é fator de competitividade”, diz Heitor Klein, da Abicalçados

Heitor Klein, presidente-executivo da Abicalçados Crédito: Divulgação

Exportadores brasileiros monitoram com atenção o comportamento do dólar diante de temores de que o Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos) eleve os juros internos, incentivando investidores a migrarem os seus recursos para rendimentos de baixíssimo risco, e também ao anúncio do presidente Donald Trump de abandonar o acordo nuclear com o Irã. Contudo, se por um lado, a proximidade de uma taxa cambial de R$ 3,60 anima, de outro, gera cautela devido a intervenção do BC do Brasil com o objetivo de controlar movimentos especulativos.

“Câmbio não é fator de competitividade. Ele compensa as mazelas quando não está sobrevalorizado. Se tiver a R$ 3,55 ou R$ 3,60, somos capazes de competir e até crescer. Com a cotação a R$ 3,30 não se consegue”, revela Heitor Klein, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados). A competitividade, para ele, poderia ser compensada com a redução do Custo Brasil, formado pela trinca: carga tributária, logística e regulamentação (burocracia). O calçado brasileiro carrega hoje um custo de 15% a mais em relação ao mercado internacional.

Esforço para manter posição

Klein conta que o mercado externo é receptivo ao calçado brasileiro. “Temos produto que agrada, que é reconhecido pela qualidade, mas a realidade é que a faixa de preço do nosso produto lá fora não é competitivo”, assinala. “É por essa razão que nós não conseguimos avançar sobre o espaço dos nossos concorrentes”, emenda. Segundo ele, para entrar em um novo mercado hoje precisa ter uma oferta boa de preço. “E nós não estamos em condições neste momento. O momento é de se esforçar para manter a posição. Não temos condições de encorpar a nossa presença em países tradicionais”,

Questionado se não seria o caso de elevar o padrão do calçado brasileiro para um nível de padrão mais elevado, introduzindo mais design e tecnologia, o presidente executivo da Abicalçados, explica que as indústrias entrariam em um patamar de concorrência mais acirrada. “Estamos num nicho de mercado que melhor se adequa ao mercado e ao preço”, reconhece Klein. Conforme o anuário da Abicalçados, o preço médio do calçado gaúcho é maior que a média nacional.

Calçados - Exportações Unidades da Federação em US$

Crescimento beirando a estabilidade

De acordo com levantamento estatístico da Abicalçados, o Brasil está exportando hoje a metade do que embarcava oito anos atrás, em valor. Era US$ 1,8 bilhão e em 2017 foi de US$ 1,09 bilhão. No mesmo período, o setor aumentou de 99 para 151 o número de países compradores. “Ou seja, expandimos em mercado, mas perdemos em valor. E a razão é simples: o comprador não pode comprometer tudo o que gostaria ou poderia com o nosso calçado porque o preço atingiu um patamar mais elevado”, ressalta Heitor Klein.

Ele não acredita que haja uma retomada das exportações de uma forma vigorosa neste ano. Talvez um crescimento mínimo, entre 0,5% e 1,3%. “A razão é bem conhecida: não temos condições para a redução de custos de logística e de custos tributários. O mundo está comprador, mas estamos prejudicados por causa da pauta competitiva”, afirmou. O setor encerrou o primeiro trimestre de 2018 com aumento de 3% nas exportações sobre igual período do ano passado.

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